Filme mostra cotidiano de Gaza em íntimo retrato da morte – 08/12/2025 – Mundo

Filme mostra cotidiano de Gaza em íntimo retrato da morte


“Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe” tem um silêncio sepulcral. Um espaço que, além de ausência, é pressão atmosférica. A diretora iraniana Sepideh Farsi acompanha, à distância, a fotojornalista palestina Fatma Hassona ao longo de um ano da guerra na Faixa de Gaza, e o faz com uma delicadeza que nada suaviza. A guerra entre Israel e Hamas é a vivida por Fatma, e isso basta para o documentário.

O filme recusa a pressa típica dos noticiários e seus cortes, quase sempre guiados pela urgência da destruição. É no cotidiano, por outro lado, que a ruína se revela. Farsi constrói cenas lentas, dilatadas, com Fatma sem dizer quase nada, com mãos inquietas, janelas que não protegem e ruas que soam uma suspensão no tempo. É especialmente nessa espécie de iminência constante que a narrativa se fecha. É um estado de guerra.

A diretora resgata características típicas do cinema iraniano ao entender que subjetividade é método. Não há trilha melodramática nem narração que organize o sofrimento contido no filme. O que, ao mesmo tempo, quebra e faz o ritmo existir é o som dos drones, os estalos dos bombardeios, e, ao lado de Farsi, o eco das notícias. A câmera, quase sempre fixa ou na mão, observa Fatma com a mesma paciência com que se acompanha alguém tentando sobreviver sem perder a si mesma.

Em meses de conversa, entrecortados por viagens de Farsi e deslocamentos forçados de Fatma, a transfiguração da fotojornalista é visível. O rosto, antes vivo e sorridente, acumula angústias. Os olhos ganham uma opacidade que passa longe do desinteresse. Soa como cansaço inesgotável.

O filme capta o momento em que o corpo começa a dizer o que a boca não mais formula. Farsi filma esse desgaste com pudor, sem o transformar em espetáculo, mas sem nunca recuar diante dele. Os gestos de Fatma tensionam a cada conversa. Ora pela falta de acesso à comida, ora pela morte de mais alguma amiga ou parente. É a partir dessa evolução que o filme parece registrar o instante em que o cotidiano deixa de ser “normal”, como repete Fatma, e passa a ser resistência. Não uma resistência heroica, leviana, mas obstinada e própria.

O que impressiona e, ao mesmo tempo, perturba no documentário é que não há catarse. Farsi não oferece grandes revelações ou momentos de virada. Ao contrário, há um acúmulo de pequenas perdas e, ao fim, a mais prevista delas.

A certa altura, o espectador é obrigado a confrontar a quase monotonia —para quem vê e não viveu— com a realização de que não se trata mais da rotina de uma fotógrafa em Gaza, mas do processo íntimo de alguém que se afasta de quem era. Não por opção. A ocupação israelense não cessa os ataques em nenhum momento, lembra Fatma.

A destruição, quando mostrada, não explode na tela. Elas são intrusas. Casas desmoronadas, fumaça espessa, pedaços de concreto se tornam parte da paisagem e vizinhança de Fatma. Tudo com a mesma naturalidade das árvores em um campo que ela havia fotografado meses antes.

Há uma ética na forma como o filme se recusa a espetacularizar a emoção. A diretora confia no olhar do espectador, convidado a perceber a erosão que cai sobre Fatma. O viço cede lugar a uma espécie de vigília permanente que, a quem assiste, mantém a iminência. Ela está sempre prestes a ouvir o próximo ruído. E esse sempre pode ser o último.

Fatma precisou guardar o coração na palma da mão e caminhar para, nas vezes possíveis, lembrar que dela jamais escapariam a identidade palestina, a terra de sua família e os sonhos que sempre teve. O filme mantém o tênue equilíbrio entre intimidade e política, silêncio e explosão. E, ao fazê-lo, retrata Fatma seguida de um povo que, contra as forças, resiste. Seu sonho era comer um pedaço de frango e um chocolate.



Fonte CNN BRASIL

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