Manipulação da história dá lugar a fascismo – 25/08/2025 – Mundo

15833562205e60193c2e018_1583356220_3x2_rt.jpg


Para Jason Stanley, a democracia começa —e pode terminar— na sala de aula. Em “Apagando a História: Como os Fascistas Reescrevem o Passado para Controlar o Futuro”, o filósofo mostra como as batalhas em torno da educação não são simples disputas pedagógicas, mas parte de um projeto político para criar uma narrativa única da nação, apagar memórias incômodas e formar cidadãos dóceis, prontos para seguir líderes que prometem simplificar um mundo complexo.

Stanley identifica cinco características recorrentes da “educação fascista”: exaltação da grandeza nacional, culto à pureza, insistência na inocência da pátria, papéis rígidos de gênero e a demonização da esquerda.

Essa matriz, lembra ele, reaparece em iniciativas como a campanha organizada contra o 1619 Project, uma iniciativa de repensar a história dos EUA a partir da chegada dos primeiros escravizados africanos ao território, no século 17. Também aparece na deturpação da teoria crítica da raça e em tentativas de eliminar referências à diversidade sexual e de gênero dos currículos americanos. O objetivo não é apenas ignorar a escravidão, o genocídio indígena ou a contribuição de imigrantes não brancos, mas instalar no lugar um mito em que a grandeza americana estaria restrita a seus fundadores brancos.

O livro conecta essas práticas a experiências históricas. O nazismo reescreveu a história alemã para excluir a contribuição judaica e legitimar o expansionismo. As leis de segregação racial Jim Crow, nos EUA, criaram por décadas uma ordem autoritária sem necessidade de um ditador carismático. A lição, segundo Stanley, é clara. Não é preciso um líder fascista para haver sistemas fascistas. Estruturas institucionais podem cumprir essa função com a mesma brutalidade.

Essa chave de leitura ganha força quando o autor analisa a guerra da Ucrânia. Para ele, a invasão russa não se sustenta apenas em objetivos militares, mas em uma narrativa revisionista: a de que a Ucrânia seria uma nação “artificial”, destinada a ser parte da Rússia. O apagamento deliberado da história e da identidade ucranianas fornece a justificativa ideológica para a violência. Moscou não busca apenas ocupar território, mas destruir a capacidade de um povo de narrar seu próprio passado.

Jason Stanley nasceu em 1969, é filósofo e professor, e tornou-se uma das principais vozes sobre autoritarismo no século 21. Em 2024, transferiu-se de Yale para a Universidade de Toronto, citando a deterioração política dos EUA. É autor de “How Propaganda Works” (2015), sobre os mecanismos da manipulação retórica, e de “How Fascism Works” (2018), que analisa os elementos centrais do autoritarismo moderno.

Com escrita clara e exemplos contundentes, “Apagando a História” mostra que a memória coletiva é o campo onde se decide se sociedades permanecerão democráticas ou se deixarão capturar por narrativas únicas. Democracias exigem pluralidade de perspectivas; já regimes autoritários sobrevivem apenas pelo esquecimento. Proteger a história, em toda a sua complexidade e contradições, é proteger a própria democracia.



Source link

Leia Mais

Defesa de Vorcaro pede ao STF provas objetivas de prisão

Defesa de Vorcaro pede ao STF provas objetivas de prisão do banqueiro

março 5, 2026

naom_6916fb0d1bfdd.webp.webp

Na prisão, Bolsonaro reclama de isolamento do cenário político

março 5, 2026

Vídeo: EUA testam míssil nuclear em meio à guerra no

Vídeo: EUA testam míssil nuclear em meio à guerra no Irã – 05/03/2026 – Mundo

março 5, 2026

1772723597_logo-folha-facebook-share.jpg

Itália critica Trump e vai enviar força para o Mediterrâneo

março 5, 2026

Veja também

Defesa de Vorcaro pede ao STF provas objetivas de prisão

Defesa de Vorcaro pede ao STF provas objetivas de prisão do banqueiro

março 5, 2026

naom_6916fb0d1bfdd.webp.webp

Na prisão, Bolsonaro reclama de isolamento do cenário político

março 5, 2026

Vídeo: EUA testam míssil nuclear em meio à guerra no

Vídeo: EUA testam míssil nuclear em meio à guerra no Irã – 05/03/2026 – Mundo

março 5, 2026

1772723597_logo-folha-facebook-share.jpg

Itália critica Trump e vai enviar força para o Mediterrâneo

março 5, 2026