Saxônia-Anhalt é um estado alemão que pretende dar mais de 40% de seus votos para a AfD (Alternativa para Alemanha) nas próximas eleições regionais, em setembro. Com um ou dois pontos percentuais a mais, a sigla de extrema direita pode chegar ao poder e já se prepara para isso. Detalhes que emergem de seu plano de governo fazem políticos e observadores lembrarem de outro partido, o NSDAP, de Adolf Hitler.
Há quem veja exagero na comparação, feita de maneira pública por Dirk Wiese, coordenador parlamentar do SPD, a legenda social-democrata implacavelmente perseguida durante o Terceiro Reich. “Todos precisam entender o que está em jogo se a AfD chegar ao poder”, disse o parlamentar em entrevista à revista Der Spiegel.
“Não se via uma interferência tão descarada no aparato estatal neste país desde o fim do regime nazista.”
Há inúmeras medidas controversas nos planos da legenda para Saxônia-Anhalt e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, outro estado que vota em setembro e flerta com soluções fáceis e normalmente inviáveis do populismo. Grande parte não causa espanto a olhos brasileiros, acostumados a arroubos legislativos, como uma versão alemã do Escola sem Partido, discussões sobre gênero e mais poderes e equipamentos para a polícia.
Propostas flagramente ilegais ou que extrapolam a competência dos estados, como, por exemplo, eliminar a taxa de radiodifusão que mantém as emissoras públicas do país ou diminuir a maioridade penal para 12 anos (dos 14 atuais), parecem adicionadas aos programas para chamar a atenção.
Outras embutem diretrizes da AfD nacional. Leik-Erik Holmer, principal nome do partido em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, promete reabilitar o Nord-Stream, o gasoduto que trazia gás russo à Alemanha e à Europa até Vladimir Putin invadir a Ucrânia, em 2022.
Reatar os laços com a Rússia, tratada como ameaça existencial pelo governo Friedrich Merz e por quase toda União Europeia, apela a certo saudosismo da ex-Alemanha Oriental, justamente o caso dos dois estados com eleições marcadas para daqui a quatro meses. Na busca por esse voto afetivo, que a AfD aprendeu a cultivar rapidamente desde a sua fundação, em 2013, há quem pregue até a volta das aulas de russo nas escolas.
Nas longas listas vazadas à imprensa nas últimas semanas, a proposta que mais causa espécie é a intenção expressa por Ulrich Siegmund, candidato a ministro-presidente de Saxônia-Anhalt, cargo equivalente a governador, de ocupar de 150 a 200 cargos de alto escalão na administração assim que eleito. Para tanto, a AfD, há alguns anos, montou uma academia para formar quadros; recruta também advogados, já que a formação é exigida em parte dos cargos públicos.
Aparelhar o Estado, outro esporte que não soa incomum a ouvidos brasileiros, na Alemanha remete diretamente ao nazismo. Em 1933, ao chegar ao poder, o Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei, o partido nazista de Hitler, se esmerou na prática, ocupando todos os espaços possíveis na condução da sociedade alemã. Na sequência, o terror nazista encaminhou o país à Segunda Guerra Mundial e ao holocausto.
O histórico de Siegmund concorre para a impressão. Ele era um dos representantes da AfD no encontro em um hotel de Potsdam, em novembro de 2023, que reuniu políticos, neonazistas e empresários. A existência do convescote só veio a público graças a uma reportagem do Correctiv, um grupo de jornalismo investigativo alemão.
À época, causou escândalo os participantes terem discutido remigração, a deportação em massa de imigrantes. Menos de três anos depois, o termo é quase um slogan publicitário no programa do partido em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. A ideia é montar uma “polícia de repatriação”, nos moldes do ICE anabolizado pela gestão Donald Trump nos Estados Unidos, e promover “a remigração de sírios”.
“Tem muita coisa [nos programas] que já vem de antes. É uma sedimentação”, diz Marina Slhessarenko Barreto, pesquisadora do núcleo Direito e Democracia do Cebrap. “Eles estão olhando para os vizinhos, para as experiências que, entre aspas, deram certo, e meio testando para ver o que cola no cenário alemão”, afirma a especialista, notando o incentivo ao homeschooling no programa de Siegmund para a Saxônia-Anhalt, na região centro-leste do país. “Vem no esteio do que aconteceu na Áustria, durante o governo extremista do país.”
Outra apropriação da AfD é a teoria da “Grande Substituição”, do escritor francês Renaud Camus, do início da década passada, que ganhou tração entre supremacistas nos dois lados do Atlântico. A população branca do hemisfério norte e de origem europeia estaria sendo substituída por imigrantes não brancos, fantasia conspiratória que não sobrevive a qualquer análise demográfica.
Ainda assim, Manuela Schwesig, atual ministra-presidente de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, no nordeste do país, é acusada de promover uma “sociedade multicultural” em detrimento da sociedade alemã. Além de propor mais disciplina e expulsões céleres nas escolas do estado, o programa da AfD defende a promoção da “arte folclórica” e a preservação do “estilo arquitetônico regional”.
O tom é confessadamente reacionário. Bauhaus é coisa de comunistas. A frase é atual, mas repete o argumento que fechou a escola de Walter Gropius e Mies van der Rohe na década de 1930.
Partido da governadora, o SPD, desde a última eleição, em 2021, perdeu quase 13 pontos percentuais nas pesquisas de intenção de voto. A AfD ganhou 19 pontos. Se a eleição fosse no “próximo domingo”, como os levantamentos em geral são formulados no país, o partido alcançaria a maior bancada, com 28 assentos, longe da maioria (36).
Não obstante, uma coalizão entre SPD, a CDU do primeiro-ministro e A Esquerda, que também cresce neste pleito, teria que ser formada para manter o Brandmauer, o termo em alemão para firewall ou cordão sanitário, em vigor até aqui na Alemanha —nenhum partido democrático aceita negociar ou contar com os votos da AfD.
Na Saxônia-Anhalt, a disputa é bem mais apertada. Com 41,6% das intenções de voto, segundo pesquisa agregada, a AfD alcançaria 41 assentos no parlamento regional se o pleito fosse agora, a 1 posto da maioria. Novamente, uma improvável aliança entre sociais-democratas, conservadores e esquerdistas teria que prevalecer para evitar um inédito governo de extrema direita.
No topo de uma lista de questões a serem resolvidas para viabilizar tal coalizão, a CDU teria que mudar seu entendimento interno que iguala A Esquerda à AfD como partidos com os quais não negocia. Ainda que formuladora de propostas radicais, A Esquerda não é classificada pelos serviços de segurança do país como extremista, diferentemente do que ocorre com a sigla populista.
“A CDU, em alguma medida, tem um programa de governo parecido com o da AfD. Incorporou várias políticas na área de imigração, inclusive antes da eleição federal no ano passado. Agora estão voltando atrás e falando que a AfD é antissemita, nacionalista, antidemocrática”, observa Barreto.
O fenômeno não se restringe à Alemanha. Do Reino Unido à França, líderes condenam a extrema direita, mas absorvem parte de suas propostas, até aqui sem dividendos eleitorais. Políticos, estudiosos e imprensa travam intenso debate sobre como evitar a ascensão populista. Em Berlim, fala-se até no Artigo 37 da Constituição, que prevê “tutela federal” caso o estado não cumpra com suas obrigações.
Enquanto isso, o programa de governo da AfD da Saxônia-Anhalt, conta a imprensa alemã, busca assertividade com 669 pontos de exclamação. Por enquanto, está funcionando, mostram pesquisas de opinião também no âmbito federal. Alice Weidel, colíder do partido, projeta eleger um primeiro-ministro nas eleições de 2029. Ou antes, se a contestada coalizão de Merz não sobreviver até lá.




