Acordo no Irã seria missão descumprida de EUA e Israel – 26/05/2026 – Mundo

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Fim do programa nuclear iraniano, mudança de regime no Irã, restrições ao arsenal de mísseis do país e disrupção na rede de aliados de Teerã no Líbano (Hezbollah) e no Iêmen (houthis). Esses eram objetivos anunciados por Israel e Estados Unidos quando iniciaram a guerra contra o Irã, em 28 de fevereiro.

Missão descumprida. Nenhuma dessas metas será atingida com o acordo que está sobre a mesa, independentemente do resultado das negociações de paz em curso entre americanos e iranianos.

Pelo contrário. A guerra engendrada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, e pelo primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, deve deixar como legado um governo ainda mais linha-dura no Irã, não restringirá o programa de mísseis e drones do país, dificilmente vai levar à transferência de todos os 440 quilos de urânio enriquecido a 60% e a um comprometimento de Teerã com uma moratória longa no enriquecimento —além de não mudar as relações iranianas com seus proxies.

Para completar, o Irã ganhou uma arma poderosa para impor seu poder na região e no mundo: a administração do estreito de Hormuz. Ainda que o atual acordo preveja uma liberação da via marítima, o Irã já indicou que pode adotar uma espécie de pedágio ou taxas “ambientais”, e sempre vai pairar a possibilidade de voltar a restringir a passagem de embarcações.

Autoridades ligadas à Guarda Revolucionária rechaçam a ideia de abrir mão totalmente do controle do estreito, que veem como importante instrumento de dissuasão.

Isso tudo supondo que EUA e Irã, com a mediação de Paquistão e Qatar, cheguem mesmo a um acordo no curto ou médio prazo.

Os EUA, como já é de praxe, voltaram a fazer ataques “de autodefesa” apesar do cessar-fogo em vigor desde 8 de abril. O Irã afirmou que irá retaliar. Por enquanto, parece que os ataques não fizeram as negociações descarrilharem.

Mas se consolida essa nova modalidade de cessar-fogo, em que o fogo não cessa nunca. No Líbano, por exemplo, foram centenas de mortos em ataques israelenses desde que foi assinado um cessar-fogo em 17 de abril. Netanyahu, ignorando a trégua, afirmou ter determinado às forças israelenses que intensifiquem os ataques. “Estamos em guerra contra o Hezbollah”, disse.

O Irã não abre mão da interrupção de hostilidades, tanto em seu território quanto no Líbano, como precondição para um acordo de paz. Israel indicou que pretende ter salvo-conduto para continuar os ataques em solo libanês, mesmo que a guerra supostamente acabe.

Do lado iraniano, há uma profunda desconfiança em relação aos americanos. Os EUA atacaram o Irã duas vezes durante negociações, antes da guerra dos 12 dias em junho do ano passado e em fevereiro deste ano. Depois do cessar-fogo de 8 de abril, os EUA não suspenderam o bloqueio marítimo ao Irã, como estipulado —o que levou Teerã a retomar as restrições em Hormuz.

Uma das principais exigências dos iranianos para fechar um acordo é descongelar os ativos do país no exterior e remover sanções. Escaldados, os iranianos exigem que metade dos US$ 24 bilhões congelados sejam liberados na assinatura do memorando de entendimento, e o restante, em 60 dias a partir de então.

Mas isso pode ser difícil para Trump emplacar com os chamados “hawks” nos EUA. O senador republicano Ted Cruz afirmou que um acordo nesses moldes seria um “erro desastroso”, pois viabilizaria “um regime iraniano recebendo bilhões de dólares e com capacidade para enriquecer urânio e desenvolver armas nucleares”.

O programa nuclear e o destino do urânio enriquecido atualmente sob escombros no Irã só seria discutido em uma segunda fase do acordo. Mas os dois lados têm visões muito diferentes sobre isso. Iranianos recusam-se a transferir o urânio para um terceiro país. Trump, embora tenha sinalizado que pode aceitar uma diluição desse urânio em solo iraniano, com fiscalização de autoridades da Agência Internacional de Energia Nuclear, não se comprometeu com isso.

A relação do Irã com o Hezbollah e com os houthis —uma linha vermelha para Israel— nem sequer é mencionada no rascunho do texto atualmente em negociação. Ou seja, não está claro se conseguirão chegar a um acordo e se, caso cheguem, será um tratado minimamente aceitável.

Na semana passada, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, publicou no X uma cena do filme “O Aprendiz”, em que um jovem Trump ouve conselhos de seu então mentor Roy Cohn. “Não importa o que aconteça, você sempre declara vitória e nunca admite derrota”, diz Cohn.

Esse é o mantra de Trump em qualquer situação. Mas, no caso da guerra do Irã, vai ser bem difícil convencer alguém de que um fracasso retumbante foi uma vitória.



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