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Europa e China: o choque que está chegando
Durante anos, a relação entre a União Europeia (UE) e a China funcionou numa espécie de acordo tácito: Pequim vendia, a Europa comprava, e os dois lados fingiam que as tensões podiam ser administradas pela diplomacia. Esse arranjo está se desfazendo — e mais depressa do que Bruxelas gostaria de admitir.
O sinal mais recente veio das próprias capitais europeias. França, Espanha, Itália, Holanda e Lituânia circularam um documento conjunto nesta semana pedindo instrumentos comerciais mais duros contra Pequim — tarifas, cotas e um mecanismo que force a diversificação de cadeias de suprimento em setores sensíveis. O timing não é casual: o papel chega dias antes de um debate de orientação sobre política chinesa convocado pela Comissão Europeia para esta sexta-feira (29) — uma das reuniões mais importantes sobre o tema nos últimos anos.
Os números justificam o alarmismo. O déficit comercial da UE com a China chegou a €360 bilhões em 2025. Nos primeiros quatro meses de 2026, o superávit chinês com a Europa somava US$113 bilhões, ante US$91 bilhões no mesmo período do ano anterior.
De 2019 a 2025, a indústria europeia perdeu um milhão de empregos, em boa parte pressionada por produtos chineses com preços subsidiados pelo Estado. As acusações de dumping se acumulam nos dossiês da Comissão, mas as respostas chegam devagar.
O problema central não é a falta de instrumentos, que Bruxelas sinaliza estar finalmente disposta a usar. O comissário europeu de Indústria, Stéphane Séjourné, afirmou que a UE vai ampliar o uso de cotas e tarifas de forma mais sistemática para proteger setores inteiros. Segundo ele, a ameaça chinesa à indústria química, metalúrgica e de tecnologia limpa é “existencial”, e 29 milhões de empregos europeus estão em risco.
“Se não estabelecermos uma disputa de poder com a China, o que a faria reequilibrar a balança comercial a nosso favor? Nada!”, disse ao Le Monde. O risco de não agir, avisou, é que, em três ou quatro anos, os países-membros digam a Bruxelas: “Vocês falharam em nos proteger”.
A questão é se os países mais reticentes — Alemanha e Espanha em particular — vão embarcar. Berlim é o elo mais fraco da corrente, por continuar travado entre a indústria automobilística, que depende do mercado chinês, e a pressão crescente de seus próprios aliados.
A incapacidade de Bruxelas de responder de forma coesa à concorrência chinesa alimenta o discurso dos partidos de extrema direita e de extrema esquerda que encontraram um argumento eleitoral poderoso. Em vários países europeus, a narrativa é a mesma: as elites de Bruxelas deixaram a indústria nacional ser destruída enquanto negociavam acordos que só beneficiaram grandes empresas. É uma simplificação, mas tem funcionado nas urnas.
E o paradoxo é visível. Enquanto os governos europeus debatem como conter a influência chinesa, a China investe mais na Europa do que em qualquer momento desde 2018 — €16,8 bilhões em investimentos diretos em 2025.
O destino preferido não é Paris, Berlim ou Milão: é Budapeste. A Hungria recebeu €3,9 bilhões, tornando-se o principal ponto de entrada de Pequim no mercado único europeu. O ex-primeiro-ministro Viktor Orbán fez durante anos da hospitalidade à China uma estratégia de sobrevivência.
O que está em jogo ultrapassa a questão tarifária. A Europa enfrenta o que analistas chamam de “China shock 2.0” — não apenas a concorrência industrial de duas décadas atrás, mas uma ofensiva simultânea em tecnologia, infraestrutura e geopolítica.
A China domina minerais críticos, controla boa parte da produção de componentes eletrônicos e usa seus investimentos como instrumento de influência dentro da própria UE.
Para o Brasil, o cenário tem implicações diretas. Uma escalada de tensões comerciais entre a Europa e a China redesenha fluxos de investimento, pressiona cadeias de suprimento globais e pode abrir — ou fechar — janelas para países que, como o Brasil, tentam navegar entre os dois blocos sem se comprometer com nenhum.
A questão não é se o choque vai acontecer. É se a Europa vai conseguir, desta vez, agir unida antes que seja tarde.
Frase da semana
“Os europeus nunca falaram a uma só voz com a China, que explora nossas divisões”
Stéphane Séjourné
comissário europeu de Indústria em entrevista ao Le Monde, 28 de maio
Rússia: a força de quem está perdendo
Há um paradoxo crescente na guerra da Ucrânia. Quanto mais a Rússia escala militarmente com mísseis hipersônicos e ameaças de bombardeios massivos, mais clara fica sua situação incômoda no campo de batalha.
Abril foi o primeiro mês em que as forças russas perderam terreno na Ucrânia desde o verão de 2024. Em 24 de maio, Moscou lançou um dos maiores ataques aéreos da guerra, com mais de 90 mísseis balísticos e de cruzeiro e 600 drones.
Foi disparado um míssil hipersônico Oreshnik que atingiu a região de Bila Tserkva, a 90 quilômetros de Kiev. O mais próximo da capital até hoje.
O Oreshnik voa a até 13.000 quilômetros por hora e é difícil de interceptar. Seus lançamentos são vistos por analistas menos como vantagem militar e mais como sinalização política. Servem para intimar a Ucrânia e aos seus aliados ocidentais.
O ministro das Relações Exteriores ucraniano, Andriy Sybiha, resumiu o ataque como uma tentativa de “demonstrar força para o público doméstico” que, segundo ele, “apenas confirma a fraqueza de Putin.”
‘Não terminamos de sofrer’
A frase acima escapou durante uma recente entrevista coletiva do primeiro-ministro francês Sébastien Lecornu. Ela resumiu com precisão o que a guerra no Oriente Médio está fazendo com o mundo.
O mecanismo central é o fechamento do estreito de Horrmuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito consumidos globalmente.
O diretor-executivo da Agência Internacional de Energia, Fatih Birol, descreveu a crise atual como maior do que os choques dos anos 1970 e da guerra da Rússia contra a Ucrânia “somados”.
Os efeitos aparecem nos números. Nos Estados Unidos, a inflação medida pelo índice PCE — preferido do Federal Reserve — chegou a 3,5%, o nível mais alto desde 2023. A inflação ao produtor subiu a 6% em abril. Na zona do euro, a inflação atingiu 3% em abril — acima da meta do Banco Central Europeu —, com os preços de energia disparando 10,8%.
A Comissão Europeia cortou sua projeção de crescimento para a zona do euro para apenas 0,9% em 2026. A França concentra bem as contradições do momento. Crescimento zero no primeiro trimestre, risco de recessão, e um pacote de subsídios a combustíveis de até €1,7 bilhão anunciado sem que o governo explique como será financiado. O custo total da guerra às finanças públicas francesas chega a €6 bilhões, número que o próprio premier admitiu precisar ser revisto para cima.
No meio da crise, Lecornu ensaiou uma resposta de longo prazo: um “plano Messmer moderno”. Ele cita o programa nuclear lançado pelo governo de Pierre Messmer, primeiro-ministro de Georges Pompidou, em resposta ao choque do petróleo de 1973 para acelerar a eletrificação do país.
“O que por muito tempo foi uma questão climática está se tornando uma questão de soberania”, disse.
O dilema para os bancos centrais é clássico e incômodo: inflação em alta, crescimento em queda. A escolha entre apertar ou afrouxar a política monetária não tem resposta fácil e o sofrimento deve continuar pelo menos por mais algum tempo.
Brasil e OCDE: a birra
Na semana que vem, Paris abriga a reunião ministerial da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, deve estar presente. O Brasil continuará fora da organização, o que causa perplexidade nos corredores da sede parisiense. Fontes ouvidas pela Folha na OCDE descrevem a postura brasileira em alguns momentos como “birra infantil”.
O argumento oficial em Brasília mistura desconfiança ideológica com a retórica Sul-Sul. A OCDE seria um clube de países ricos, incompatível com a política externa de um governo que prioriza o Brics.
O problema é que esse argumento não se sustenta mais. A organização tem hoje membros como México, Chile, Colômbia e Costa Rica. A Argentina voltou a manifestar interesse. A aproximação do Brasil com a OCDE começou em 1997 (governo FHC), e ganhou força em 2007 (governo Lula), quando o Brasil foi convidado a ser um “Parceiro Chave” (Key Partner). O governo de Michel Temer deu início ao processo formal de adesão, posteriormente congelado por Brasília.
Num mundo em que os EUA de Trump se retiram sistematicamente das instituições multilaterais, a OCDE é uma das poucas que saiu fortalecida. Ficar de fora não é neutralidade, é uma escolha com consequências.
No radar
29 de maio — Bruxelas debate sua política para a China. Depois do documento conjunto de cinco países pedindo instrumentos mais duros, esta reunião da Comissão Europeia vai mostrar se há — ou não — vontade real de agir.
30 de maio — Final da Liga dos Campeões, em Budapeste. PSG x Arsenal, no Puskás Aréna, às 18h (horário de Paris). O clube da cidade onde escrevo esta newsletter tenta defender o título. Razão suficiente para acompanhar.
A semana toda:
- Olho nos ataques russos à Ucrânia. Moscou prometeu intensificá-los. Kiev já foi avisada.
- Negociações pelo fim da guerra no Irã avançam em Doha. Desta vez vai? Já ouvimos isso antes — mas os sinais são ligeiramente menos pessimistas que nas semanas anteriores.
Fora da pauta
Chokepoints: American Power in the Age of Economic Warfare, de Edward Fishman (Portfolio, 2025)
Fishman serviu no Departamento de Estado e no Tesouro americano durante o governo Obama. Em Chokepoints, ele mostra como sanções, domínio tecnológico e controle de cadeias de suprimento substituíram a guerra militar como arma de escolha das grandes potências. O título é uma coincidência com o momento: o estreito de Hormuz é hoje o chokepoint mais perigoso do mundo.




