A China ordenou que uma repórter do jornal The New York Times deixe o país, e os Estados Unidos responderam revogando o visto de um jornalista da mídia estatal chinesa, em uma retaliação diplomática com implicações para a liberdade de imprensa e as relações entre Washington e Pequim.
A ordem de expulsão da repórter Vivian Wang, do NYT, em fevereiro, é o exemplo mais recente da repressão do regime chinês contra correspondentes estrangeiros cujas reportagens desafiam a linha oficial autoritária de Xi Jinping. O caso também inflama tensões de longa data entre os dois países sobre a presença da imprensa de cada país dentro das fronteiras do rival.
Autoridades chinesas disseram ao NYT que agiram contra Wang, correspondente do jornal na China desde 2020, em resposta à participação por vídeo do presidente de Taiwan em um evento do serviço DealBook do jornal em Nova York, em dezembro; Wang não teve nenhum papel no evento.
Autoridades chinesas, porém, vinham reclamando há meses sobre a cobertura de Wang, que focava a vida de chineses comuns e frequentemente abordava assuntos sensíveis no país como censura, a impopular resposta de Pequim à pandemia de Covid-19 e a expansão constante do aparato estatal de segurança da China.
Após a expulsão de Wang, o governo de Donald Trump revogou o visto de um cidadão chinês que trabalhava nos EUA para a agência Xinhua, segundo uma pessoa informada sobre a decisão. Uma porta-voz do NYT disse que o jornal não pede a governos que revoguem credenciais de mídia ou interfiram no trabalho de quaisquer jornalistas, incluindo neste caso. Muitos funcionários do governo Trump e analistas independentes consideram a Xinhua um órgão de propaganda do regime chinês.
Embora Trump não seja visto como um defensor da liberdade de imprensa e tenha buscado relações amigáveis com Xi, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, é há tempos um crítico do sistema político da China, incluindo seus esforços para censurar e controlar informações.
A Embaixada da China em Washington não respondeu a pedidos de comentário do New York Times.
Após a expulsão de Wang em fevereiro, os editores do NYT se engajaram em muitas semanas de discussões com o regime chinês, pressionando pelo retorno da repórter. Autoridades chinesas concordaram em conceder um visto de sete dias a Wang, junto com vários outros jornalistas do jornal, para cobrir a visita de Trump a Pequim neste mês, mas se recusaram a permitir que ela retomasse sua função como correspondente baseada no país asiático.
Autoridades chinesas concordaram em deixar Wang retornar mais uma vez nesta semana, com um visto de curto prazo não jornalístico, para empacotar seus pertences em seu apartamento em Pequim.
Wang passou dois anos em Hong Kong antes de se mudar para Pequim em 2022. Em 2021, ela fez parte de uma equipe que ganhou o prêmio Pulitzer de serviço público pela cobertura da pandemia de coronavírus.
“A decisão do governo chinês de expulsar Vivian Wang está errada”, disse Joseph Kahn, editor-executivo do NYT. “Sua expulsão tornará ainda mais difícil para nosso público global obter reportagens precisas, independentes e aprofundadas sobre a segunda maior economia do mundo em um momento crítico.”
Chamando Wang de “uma das jornalistas mais respeitadas cobrindo a China hoje”, Kahn disse que sua expulsão “segue uma campanha de assédio e ameaças direcionadas a ela por reportagens profissionais, precisas e equilibradas”.
Ele acrescentou que o número de correspondentes de veículos de mídia americanos autorizados a trabalhar na China “caiu agora para um nível alarmantemente baixo, em um momento em que a necessidade de que pessoas em todos os lugares entendam a China é maior do que nunca”.
O Departamento de Estado americano não respondeu a pedidos de comentário do New York Times.
Acredita-se que pouco mais de 20 jornalistas estrangeiros empregados por organizações de notícias americanas estejam atualmente baseados na China. Vários grandes veículos americanos que tinham uma presença robusta no país antes da consolidação de poder de Xi na última década agora mal estão presentes, se é que estão.
Com a partida de Wang, o New York Times conta com apenas um correspondente baseado na China continental, abaixo de um pico de pouco mais de dez. O Washington Post não tem um há vários anos.
Uma razão para o declínio é a redução acentuada nos vistos de longo prazo emitidos para jornalistas americanos. O Ministério das Relações Exteriores da China agora é mais propenso a conceder vistos de curto prazo a repórteres, que podem não ser renovados se autoridades de Pequim não gostarem de sua cobertura.
Cerca de cem jornalistas chineses estão agora reportando dos EUA, abaixo de 160 antes de China e EUA começarem a tomar medidas restritivas contra os correspondentes um do outro durante o primeiro governo Trump.
Em setembro de 2018, o Departamento de Justiça ordenou que as filiais americanas da Xinhua e da China Global Television Network (CGTN) se registrassem como agentes estrangeiros. Em fevereiro de 2020, três correspondentes do Wall Street Journal foram expulsos da China continental depois que o jornal publicou um artigo de opinião crítico a Pequim que irritou autoridades chinesas. Os repórteres expulsos não tiveram nenhum papel na publicação do artigo.
Por volta da mesma época, o governo Trump declarou que cinco organizações de notícias estatais chinesas operando nos EUA —Xinhua, CGTN, China Radio, China Daily e People’s Daily— estariam sujeitas a regulamentações semelhantes às que se aplicam a diplomatas estrangeiros. Autoridades americanas também limitaram a cem o número de jornalistas autorizados a trabalhar para essas organizações nos EUA.
O Ministério das Relações Exteriores da China chamou a medida de “expulsão em tudo, menos no nome” e disse que as crescentes restrições de Washington a agências de mídia chinesas e trabalhadores nos EUA “propositalmente criaram dificuldades para suas tarefas normais de reportagem e os sujeitaram a crescente discriminação e opressão politicamente motivada”.
Autoridades do governo Trump enfatizaram na época que, diferentemente de suas contrapartes chinesas, não estavam tentando censurar ou influenciar nenhuma cobertura. Mas um artigo de opinião publicado no site da CGTN afirmou que “os EUA montaram uma repressão vigorosa contra a mídia chinesa nos EUA para conter o crescente soft power da China”.
Em sua declaração, Kahn observou que o New York Times reporta sobre a China desde a década de 1850 e permanece “comprometido em cobrir o país de forma completa e justa, com correspondentes baseados na China e em toda a região”.
Ele instou os governos dos EUA e China a reverterem a recente deterioração no acesso de jornalistas e a priorizar um fluxo mais livre de informações entre os países.




