Os Estados Unidos estão discutindo se devem posicionar armas nucleares em outros Estados europeus da Otan, em uma medida destinada a tranquilizar os aliados de que a redução do apoio militar convencional não enfraquece as garantias de segurança.
Autoridades americanas sinalizaram abertura para implantações adicionais além dos seis países que atualmente abrigam bombardeiros com capacidade nuclear, disseram ao Financial Times três pessoas informadas sobre as discussões.
As conversas, que são altamente confidenciais e podem não levar a nenhuma mudança nos acordos de compartilhamento nuclear, ocorrem em meio a uma preocupação generalizada na Europa com as medidas de Donald Trump para remover tropas americanas e sistemas de armas críticos do continente.
Isso potencialmente permitiria que mais países abrigassem as chamadas aeronaves americanas de dupla capacidade (DCA, na sigla em inglês), que são capazes de realizar ataques nucleares.
Duas das pessoas disseram que a abertura para discutir uma expansão tinha como objetivo demonstrar o compromisso dos EUA em fornecer um guarda-chuva nuclear, mesmo enquanto os aliados da Otan são pressionados a assumir mais do fardo da defesa convencional.
Países no flanco oriental da Otan, incluindo a Polônia e alguns Estados bálticos, estariam interessados em potencialmente abrigar bases de DCA, disseram as fontes.
Autoridades polonesas, em particular, falaram publicamente sobre o desejo de abrigar armas nucleares. O ex-presidente Andrzej Duda pediu que os EUA expandissem a iniciativa de DCA para seu território, enquanto Varsóvia aderiu este ano a uma nova iniciativa francesa para explorar a possibilidade de transferir temporariamente partes de seu arsenal nuclear para países europeus aliados pela primeira vez.
As discussões estão em andamento nos canais da Otan, disse uma pessoa familiarizada com as negociações, acrescentando que os aliados mais próximos das fronteiras da Rússia demonstraram maior interesse.
A invasão da Ucrânia pela Rússia e os repetidos comentários do presidente Vladimir Putin sobre as capacidades nucleares do Kremlin catalisaram o interesse de alguns aliados em abrigar DCA, acrescentaram.
Uma segunda pessoa familiarizada com as discussões disse que um acordo para expandir o recebimento de armas nucleares americanas não é iminente.
O programa de compartilhamento nuclear da Otan envolve aliados —atualmente Bélgica, Alemanha, Itália, Holanda, Turquia e Reino Unido— aprovados para abrigar DCA americanas e bombas nucleares “implantadas em posições avançadas”. Estas estão sob proteção dos EUA, com Washington mantendo autorização exclusiva para seu uso.
A Otan afirma que o arranjo, elaborado durante a Guerra Fria, “fornece uma plataforma para aliados não nucleares moldarem a política e o planejamento nuclear da aliança como um meio de garantir sua segurança sem adquirir armas nucleares”.
As armas nucleares americanas implantadas em Estados europeus são armazenadas e guardadas por tropas dos EUA. Os grupos aéreos designados das nações aliadas, usando jatos F-35, F-15 e Tornado, são treinados para participar de exercícios e missões para demonstrar postura de força e, em última instância, lançar as bombas quando autorizados pelos EUA.
Medidas recentes do governo Trump para cancelar implantações planejadas de sistemas de armas essenciais na Europa e anunciar retiradas de tropas como parte de uma mudança para transferir mais ativos militares para a Ásia e outras regiões alarmaram alguns aliados da Otan. Eles temem que isso deixe lacunas nas defesas do continente e na capacidade de dissuadir ou repelir qualquer ataque.
Embora os aliados europeus tenham se comprometido a aumentar drasticamente seus gastos com defesa e investimentos em capacidades militares convencionais essenciais atualmente fornecidas pelos EUA, o guarda-chuva nuclear é considerado insubstituível.
O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, disse após uma reunião de ministros das Relações Exteriores da aliança no mês passado que havia um “entendimento comum de que, embora os EUA se voltem mais para outros teatros… a dissuasão e defesa geral na Europa deve permanecer a mesma”.
“Deixe-me ser absolutamente claro… Se alguém for tolo o suficiente para nos atacar, a resposta será devastadora”, disse Rutte.




