A agência Xinhua reportou nesta sexta (5) que Xi Jinping fará uma visita de Estado à Coreia do Norte na semana que vem a convite de Kim Jong-un. Será a primeira passagem do líder chinês por Pyongyang em sete anos, justificada pela comemoração dos 65 anos do Tratado de Amizade de 1961 que continua sendo o único pacto de defesa mútua que a China mantém no mundo.
A confirmação do encontro chega num momento de atrito nas relações bilaterais, com Pyongyang cada vez mais próxima de Moscou. Veio também um dia depois de Pyongyang divulgar a inauguração de uma usina de combustível nuclear, ocasião em que Kim exigiu a expansão exponencial do arsenal atômico do regime.
Espere ouvir as costumeiras análises em Washington e em Seul sobre a relevância da China para a sobrevivência do regime, respondendo por 95% do comércio norte-coreano e por 85% de suas exportações. O número é verdadeiro, mas a conclusão que se extrai dele não.
A Coreia do Norte jamais foi dependente da China no sentido político do termo. Durante a Guerra Fria, Kim Il-sung explorou a ruptura entre Moscou e Pequim para arrancar armas dos dois lados sem se curvar a nenhum. Quando a China decidiu reconhecer a Coreia do Sul em 1992, o regime respondeu ancorando sua sobrevivência em um crescente arsenal nuclear, não na boa vontade chinesa.
A natureza do vínculo entre os dois países também passa por transformações desde a invasão da Ucrânia, em 2022. Kim Jong-un encontrou na Rússia um segundo padrinho, enviando munição e cerca de 11 mil soldados para Kursk e selando em 2024 um tratado com Putin com cláusula de defesa mútua. Com um corredor militar alternativo e um segundo escudo no Conselho de Segurança da ONU, Pyongyang inverteu a hierarquia e, pela primeira vez em décadas, é Pequim quem precisará cortejar a Coreia do Norte.
Essa erosão de influência ajuda a explicar a viagem da próxima semana. Xi não vai a Pyongyang disciplinar Kim, mas evitar que o vizinho deslize de vez para a órbita russa. Donald Trump também voltou a falar em retomar o diálogo com Kim, e o líder chinês certamente não quer ser pego de surpresa por uma aproximação direta entre Washington e o regime, como quase ocorreu em 2019.
Refletindo tais mudanças no tabuleiro, a linguagem diplomática vem mudando, e Pequim já não fala em desnuclearizar a península, mas em conter risco. Os chineses nunca se sentiram confortáveis com a ousadia nuclear de Kim. Temem que ela sirva de pretexto para uma espécie de Otan asiática, com Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul num bloco militar encostado em sua fronteira.
É por isso que recomendo cautela a quem enxerga um eixo autoritário coeso entre China, Rússia e Coreia do Norte, projeção que ignora a ausência de qualquer exercício militar conjunto ou cooperação trilateral relevante.
A China ainda carrega o trauma da Guerra da Coreia —um conflito que resultou em cerca de 1 milhão de baixas por um vizinho que até hoje minimiza o sacrifício chinês— e há dissonância de discurso entre esses três atores, com Kim celebrando a “nova Guerra Fria” que Xi e Putin rejeitam em público para não alienar o chamado Sul Global.
A visita confirma um mundo em que a China deixou de ser a chave-mestra da península coreana, capaz de bancar a economia de Kim, mas não de convertê-la em obediência. Xi viaja a Pyongyang para reafirmar a própria relevância. Será que voltará para Pequim convencido de seus limites?




