Aprender português em escola onde 39% dos alunos são estrangeiros

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No Dia de Portugal, a língua está no centro das celebrações mas, para milhares de crianças que chegam ao país vindas dos mais diversos pontos do mundo, o português é uma ferramenta essencial para fazer amigos, acompanhar as aulas e sentir que pertencem à comunidade onde agora vivem.

Numa sala do Agrupamento de Escolas Patrício Prazeres, em Lisboa, esse processo acontece todas as semanas através de desenhos, jogos, histórias e conversas. Não há testes, nem manuais escolares. Há tutores voluntários e crianças que estão a dar os primeiros passos na língua portuguesa.

Entre elas está Nusrat, de 10 anos, natural do Bangladesh, que vive em Portugal há três anos. Quando lhe perguntam o que mais gosta de fazer na escola, responde sem hesitar. “Eu gosto de pintar, de escrever, e eu gosto de ler português e mais ou menos matemática.”

Academia CV.pt

O apoio que recebe faz parte do projeto Academia CV.pt – Capacitar e Valorizar em Português, uma iniciativa criada em 2016 em parceria com a associação Renovar a Mouraria e a Fundação Cidade de Lisboa, para apoiar crianças migrantes na aprendizagem da língua e na integração escolar, como explica Nuno Melendez, coordenador do projeto no Agrupamento de Escolas Patrício Prazeres.

“O principal objetivo é apoiar no desenvolvimento de competências pessoais, sociais, mas essencialmente de competências a nível do português, porque consideramos que a falta de domínio do português é uma das barreiras à verdadeira integração.”

Dos cerca de 770 alunos do agrupamento, aproximadamente 300 têm origem migrante. São cerca de quatro em cada dez alunos (39%) e 36 nacionalidades diferentes representadas na comunidade educativa. 

Academia CV.pt
Dos cerca de 770 alunos do agrupamento, aproximadamente 300 têm origem migrante.

Tutores voluntários

O apoio é assegurado por voluntários de diferentes áreas profissionais e académicas, que acompanham semanalmente crianças sinalizadas pela escola. As tutorias são individualizadas e adaptadas às necessidades de cada aluno, privilegiando atividades lúdicas e a construção de relações de confiança.

Em entrevista à ONU News, a tutora Heloísa Fuzari explica que o projeto vai muito para além de aprender português.

Mais do que aprender português

“O objetivo não é só ensinar o português, não são apoios de português, é integrá-la de alguma forma, através de uma conexão que ela tem com uma pessoa de confiança e vão se aproximando cada vez mais da língua, sem ser uma coisa que esteja força a elas a fazer”.  

Para Matilde Marques, outra das tutoras voluntárias, há diversas valências que trabalha nas tutorias. “Eu tento que as minhas atividades reforcem essa parte, da confiança, de sentir-se mais livre, por exemplo, também na sala de aula”. 

Para a tutora Marta Guerreiro, o impacto das tutorias mede-se muitas vezes em pequenas conquistas que ajudam as crianças a ganhar segurança num contexto novo. “As crianças adoram. E avalio como importante e como uma semente, que é importante num contexto que se faz de altos e baixos, de dificuldades, e é muito importante sentirem que têm oportunidade de aprender, de criar amizades, de estar num espaço seguro.”

ONU News/ Sara de Melo Rocha
Entre 2018 e 2023, o número de alunos com pais estrangeiros nas escolas públicas portuguesas mais do que duplicou.

Desafio linguístico 

O fenómeno não é exclusivo desta escola em Lisboa. Segundo dados do Ministério da Educação, Ciência e Inovação, existem atualmente cerca de 195 mil alunos estrangeiros na escolaridade obrigatória em Portugal. Há uma década eram cerca de 50 mil.

Entre 2018 e 2023, o número de alunos filhos de pais estrangeiros nas escolas públicas portuguesas mais do que duplicou, passando de cerca de 53 mil para mais de 140 mil. Em vários concelhos do país, estes alunos já representam entre 30% e 40% das turmas.

A crescente diversidade trouxe novos desafios às escolas. As barreiras linguísticas continuam a ser uma das principais dificuldades enfrentadas pelos alunos recém-chegados, com impacto direto no sucesso escolar.

“Há já vários estudos que revelam que as crianças migrantes são as que têm uma maior taxa de insucesso escolar”, sublinha Nuno Melendez.

ONU News/ Sara de Melo Rocha
Segundo dados do Ministério da Educação, Ciência e Inovação, existem atualmente cerca de 195 mil alunos estrangeiros na escolaridade obrigatória em Portugal

Da multiculturalidade para a interculturalidade 

Apesar dessas limitações, os resultados das tutorias têm sido positivos. Avaliações realizadas junto dos professores apontam para melhorias na autoestima, na participação em sala de aula, na utilização do português e no sentimento de pertença à escola.

“Estamos a fazer esse caminho da multiculturalidade para a interculturalidade e, sendo essa uma das nossas principais filosofias, isso orienta a nossa prática e ajudam-nos a chegar a esse nosso grande objetivo, que é ter uma escola efetivamente intercultural”, afirma Nuno Melendez.

Num país que assinala a 10 de Junho o Dia de Portugal, a língua continua a ser um dos principais elementos de ligação entre pessoas e culturas. Para milhares de crianças que chegam todos os anos ao país, aprender português é encontrar uma forma de participar, de comunicar e de construir um lugar numa escola e numa sociedade cada vez mais diversas.

*Sara de Melo Rocha é correspondente da ONU News em Lisboa.



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