Precisamos de trilionários? – 16/06/2026 – Rui Tavares

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Nas democracias, temos limites à concentração de poder político. Um presidente não pode ser eleito por mais de dois mandatos sucessivos em muitos países ao redor do mundo, Brasil inclusive. Nos regimes parlamentares, o poder legislativo está limitado pelo judicial. As leis eleitorais impedem um partido de controlar absolutamente tudo, mesmo que o povo queira.

Todas estas regras fazem sentido e são comumente aceitas porque sabemos que o excesso de poder é perigoso e procuramos limitar os seus riscos. Fazemo-lo independentemente das pessoas. Mesmo o presidente que fosse a melhor pessoa do mundo e a mais incapaz de abusar dos seus poderes tem a mesma limitação de mandatos que um presidente sedento de poder.

E convivemos bem com a ideia de que a “injustiça” relativa que é limitar o poder de alguém que pudesse exercê-lo bem e com mandato popular é compensada pela justiça absoluta de dar ao povo uma oportunidade para se livrar de um governante pela força da regra, mesmo que a sua capacidade de comando da máquina do Estado lhe permitisse ter maiorias infinitas.

Curiosamente, a mesma regra tem deixado de se aplicar quando falamos de fortunas tão grandes que já não podem ser chamadas de grandes fortunas, mas fortunas hiper-ultra-mega-gigantes. Aos seus detentores chamamos megarricos, mas eu acho pouco: a distância entre um rico “normal” e uma dessas fortunas deveria levar-nos a chamá-los de hiper-ultra-mega ricos.

Aqui a regra da limitação de poder não se aplica: a ideia generalizada é que a fortuna pode crescer até ao infinito. Isto não tem de ser assim e não deve ser assim.

O mundo ganhou por estes dias o seu primeiro trilionário. Como não poderia deixar de ser, é Elon Musk. A prova em forma de gente de que o dinheiro, mesmo montanhas dele, não compra felicidade, respeito, afeto, saber ou estilo.

Ser trilionário é uma coisa difícil até de absorver. O meu país, Portugal, teve em tempos a sorte de receber o homem mais rico do mundo, o armênio Calouste Gulbenkian, conhecido pelo “Sr. Cinco por Cento”, por deter cinco por cento dos lucros do petróleo do Iraque.

Calouste Gulbenkian viveu muito bem em várias cidades do mundo; conheci a casa dele em Paris, transformada em biblioteca, onde ele nunca dormia porque ficava sempre no Ritz. Deixou muito bem a sua extensa família e ainda deu para criar uma enorme fundação, vários museus, uma orquestra, uma companhia de ballet, um instituto científico, e ainda sobrou.

Gulbenkian tinha US$ 5 bilhões nos anos 1950. Parece mais do que suficiente para o homem mais rico do mundo. Musk tem duzentas vezes mais, e segue acumulando.

Fará sentido? Vamos focar apenas um argumento: poder econômico é, também, poder político. Se nós limitamos o poder político, por que razão não fazemos o mesmo ao poder econômico?

Imaginem que um trilionário decide ter um exército. Comprar arsenais nucleares. Corromper um país inteiro e ficar dono dele. Usá-lo para desestabilizar o sistema internacional. Qualquer excesso de poder é potencialmente perigoso. O excesso de poder econômico não é exceção; a esta escala é um perigo existencial.


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