EUA, 250 anos: Guerra Fria ainda molda política no país – 29/06/2026 – Mundo

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Após o fim da Segunda Guerra Mundial, existia um consenso de que um terceiro conflito global seria apenas uma questão de tempo.

A humanidade havia atravessado duas guerras mundiais em menos de três décadas e possuía armas capazes de destruir tpda a civilização. Então Estados Unidos e União Soviética iniciaram uma disputa ideológica, militar e tecnológica que dividiria o planeta por quase meio século.

A guerra, porém, nunca aconteceu. Os 40 anos foram marcados, claro, por diversos episódios, como construção e queda do Muro de Berlim, Guerra do Vietnã, Guerra da Coreia e a crise dos mísseis de Cuba.

EUA e URSS acumularam mais de 60 mil armas nucleares sem jamais entrar em confronto direto. “O fato de termos conseguido passar por tudo isso sem destruir o mundo era considerado o resultado menos provável. Estamos vivendo justamente esse cenário menos provável”, afirma James Hershberg, professor de história da Universidade George Washington.

Quando a URSS deixou de existir, em 1991, parecia que aquele capítulo havia terminado. Mas o colapso soviético encerrou a principal disputa geopolítica do século 20 sem eliminar seus efeitos.

Quase 35 anos depois, os EUA continuam moldados por essa herança: no poder ampliado da Presidência em segurança nacional, na rede de alianças militares construída por Washington, na ordem internacional consolidada durante a Guerra Fria e até na recorrente busca por inimigos internos.

O medo da bomba

Se a Guerra Fria nunca produziu um confronto direto entre as superpotências, ela transformou a vida cotidiana dos americanos. Hoje, a ameaça nuclear reaparece no debate público em momentos como as guerra no Irã e na Ucrânia. Nas décadas de 1950 e 1960, porém, esse temor fazia parte da rotina.

Segundo Hershberg, um dos motivos era a visibilidade da corrida armamentista. Até 1963, EUA e URSS realizavam testes nucleares na atmosfera. “O perigo era muito concreto”, afirma o professor.

O medo tornou-se ainda mais palpável durante a crise dos mísseis de Cuba, em 1962, quando milhões de americanos imaginaram um conflito atingindo diretamente o território continental dos EUA.

Passadas mais de três décadas desde o fim da União Soviética, Hershberg considera que parte desse ambiente de competição voltou à política internacional, mas faz uma ressalva às comparações entre a disputa atual envolvendo EUA e China e uma nova Guerra Fria. Para ele, a rivalidade existe, mas possui natureza diferente daquela entre Washington e Moscou.

“[Vladimir] Putin não representa nenhuma ideologia além de maximizar seu próprio poder e o da Rússia. Não existe um apelo a uma ideologia global, e a China também não tem uma. Hoje estamos diante de uma competição mais tradicional entre grandes potências.”

O Estado moldado pela Guerra Fria

A ameaça nuclear também alterou profundamente a forma como os EUA passaram a exercer o poder. Segundo Hershberg, a combinação entre armas atômicas, mísseis intercontinentais e a necessidade de respostas imediatas provocou mudanças duradouras.

A Constituição atribui ao Congresso a prerrogativa de declarar guerra. Mas a lógica da Guerra Fria tornou esse modelo menos compatível com a realidade. “Levava semanas para reunir o Congresso e votar uma declaração de guerra, mas passou a existir a possibilidade de um ataque soviético acontecer em quinze minutos.”

Essa transformação também mudou a posição global dos EUA, que substituíram antigas potências europeias na manutenção de uma presença militar permanente e consolidaram, com alianças como a Otan, uma ordem internacional baseada na liderança americana.

Esse sistema sobreviveu ao fim da URSS e, em alguns aspectos, foi reforçado após o 11 de Setembro. Segundo Hershberg, porém, o consenso que sustentou essa política externa durante décadas começou a ser rompido. Para o historiador, Donald Trump abandonou princípios que orientaram a política externa americana durante a Guerra Fria e sobreviveram ao colapso soviético.

“Durante a Guerra Fria, os EUA, pelo menos em teoria, acreditavam na democracia. Às vezes agiam com hipocrisia e violavam suas próprias regras, mas defendiam a segurança coletiva, as alianças internacionais e se opunham às ditaduras.”

Agora, segundo ele, esses ideais foram abandonados em favor do que ele chama de “neoisolacionismo de Trump”. “A dúvida é se essa mudança veio para ficar ou se, em algum momento, essa tradição voltará.”

A política do medo

Para Fulton Armstrong, ex-analista da CIA e ex-integrante do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, hoje professor da American University, a Guerra Fria deixou outro legado: a tendência de transformar ameaças legítimas em instrumentos permanentes de mobilização política.

O problema, diz, é quando essas ameaças passam a justificar práticas escusas. “Muitas vezes, essas preocupações acabam dando origem a práticas ilegítimas, quando não abertamente corruptas, por meio das quais as pessoas conquistam apoio político, obtêm dinheiro e assim por diante.”

Em meio à divisão do mundo entre os blocos capitalista, liderado pelos EUA, e socialista, comandado pela União Soviética, ganhou força o macarthismo. O período ficou marcado pela perseguição, liderada pelo senador republicano Joseph McCarthy, a supostos comunistas infiltrados no governo, na imprensa, nas universidades e na indústria cultural.

“Não havia uma ameaça real de comunistas dentro dos EUA, mas McCarthy percebeu: ‘Temos um inimigo externo. Agora vamos encontrar um inimigo interno'”, diz Armstrong.

O ex-analista vê um paralelo com o debate atual sobre imigração —Trump já disse, por exemplo, que imigrantes levam “genes ruins” aos EUA e “envenenam o sangue da nação”.

“São diferentes problemas, diferentes ameaças, mas a mesma lógica”, diz Armstrong. Para ele, os EUA precisavam discutir sua política migratória, mas o tema acabou sendo usado para aprofundar divisões internas. “Precisávamos melhorar certas coisas. Mas o que Trump fez, especialmente por meio da imigração, foi dividir novamente os EUA.”

Armstrong também vê riscos na forma como parte da política americana passou a tratar a ascensão chinesa. “Há um perigo em enxergar as pessoas como inimigas. Existe uma diferença entre competição e ameaça existencial. Muita gente nos EUA, por causa da manipulação da informação, passou a enxergar competição como ameaça existencial. E isso nos coloca em um terreno muito perigoso, porque deixamos de procurar soluções para os problemas.”

Para ele, a competição entre EUA–China não precisa levar a um confronto militar. Inteligência artificial, comércio e intercâmbio acadêmico são exemplos de áreas em que os dois países poderiam cooperar sem deixar de competir. “Quando você é um grande país, tão aberto e democrático quanto queríamos ser, e fecha as portas, você vai perder.”

Hershberg e Armstrong partem de perspectivas diferentes, mas chegam a um diagnóstico semelhante. Para o primeiro, a Guerra Fria deixou como herança uma ordem internacional e uma política externa que ainda moldam o papel dos EUA no mundo. Para o segundo, o período histórico consolidou uma lógica política em que ameaças externas podem ser convertidas em instrumentos de mobilização doméstica.



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