Os Estados plenos e associados do Mercosul manifestaram nesta terça-feira (30) solidariedade à Venezuela, epicentro de um terremoto que matou ao menos 1.943 pessoas e feriu outras 10.571, segundo boletim mais recente divulgado pela ditadura. Calcula-se que as mortes causadas pelos tremores da última quarta (24) chegarão a dezenas de milhares.
A declaração, divulgada ao final da cúpula do bloco em Assunção, no Paraguai, transmite as “mais profundas condolências às famílias das vítimas”, apoia os “esforços contínuos de resgate” e ressalta a “importância de uma resposta unida e solidária a emergências”.
O país, suspenso do bloco desde 2016 por tempo indeterminado devido a uma “ruptura da ordem democrática”, foi mencionado por todos os líderes. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o segundo a falar, pediu um minuto de silêncio.
“Eu quero começar a minha fala dedicando a minha solidariedade ao povo e ao governo da Venezuela diante das perdas humanas e materiais incalculáveis causadas pelos terremotos da semana passada”, afirmou o petista. “Tragédias como essa nos convidam a refletir sobre a importância da solidariedade e da integração regional.”
O presidente chileno, José Antonio Kast, também mencionou o terremoto, mas fez uma comparação com a criminalidade. “Há um segundo terremoto […] mais lento, mais silencioso, mas que pode assassinar mais pessoas do que as que morreram na Venezuela”, disse. “Esse terremoto se chama crime organizado.”
Também estavam presentes no encontro Yamandú Orsi (Uruguai), Rodrigo Paz (Bolívia) e Daniel Noboa (Equador). Uma ausência notável foi a de Javier Milei, que estava confirmado, mas resolveu permanecer na Argentina para a posse de seu novo chefe de Gabinete, Diego Santilli, após Manuel Adorni renunciar devido a suspeitas de corrupção.
Integração, no entanto, nunca foi a prioridade de Milei, muito mais focado na relação com Estados Unidos e Israel. Antes um defensor da saída do Mercosul, o presidente argentino atualmente vê vantagens, principalmente econômicas, em estar no bloco, mas costuma desprezar ou dificultar o avanço em pautas relacionadas a outros temas.
Gênero é um dos assuntos que costumam dar divergência em órgãos multilaterais. Na segunda (29), o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, mencionou uma proposta apresentada pelo Brasil para a construção de um pacto regional de enfrentamento à violência contra as mulheres e ao feminicídio.
“Aguardamos, com interesse, a conclusão do processo de revisão dos textos pelos demais Estados Partes”, afirmou ele durante discurso no encontro com outros chanceleres, sem dar detalhes.
A crise atravessada pela Bolívia, mergulhada em protestos que sitiaram a capital, La Paz, por semanas, também foi discutida no encontro.
Em um documento final, os países do bloco manifestaram “profunda preocupação com a situação humanitária na Bolívia” e “rejeitaram qualquer ação que envolva violência, interrupção de serviços essenciais, ameaças à infraestrutura crítica ou qualquer outra conduta que comprometa a estabilidade democrática, o Estado de Direito e a convivência pacífica”.
Primeiro presidente de direita no país após duas décadas do governo do MAS (Movimento ao Socialismo), de Evo Morales, no poder, Paz enfrenta resistência de parte da sociedade boliviana desde que assumiu o cargo, em novembro do ano passado.
“A Bolívia não se sentiu sozinha, sua democracia não se sentiu sozinha. Estamos dando passos fortes para construir um novo momento no continente”, afirmou o boliviano nesta terça, também em seu discurso no Mercosul. A declaração é uma referência ao que vem sendo chamado de “onda azul”, com a chegada ao poder de líderes de direita na América do Sul.
Nesse contexto, Lula afirmou que o bloco “permanece como o principal espaço institucional em uma região cada vez mais polarizada”. Nos últimos anos, outros espaços diplomáticos, como Unasul (União de Nações Sul-Americanas) e Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) têm enfrentado esvaziamento.
“O projeto de integração sul-americano deve estar acima de qualquer divergência ideológica. A melhor opção é fortalecer nossos mecanismos de diálogo e cooperação e ampliar nossa capacidade de atuação conjunta”, afirmou o presidente brasileiro, para quem as eleições na Colômbia e no Peru, que levaram os direitistas Abelardo de la Espriella e Keiko Fujimori ao poder, “demonstraram a resiliência institucional” da região.
“O Mercosul não pode funcionar de acordo com a eleição deste ou daquele presidente, senão a gente nunca vai ter um bloco realmente forte funcionando”, afirmou.
Lula ficou menos de quatro horas no Paraguai. Antes de voltar à Brasília, onde compareceu a um evento no Palácio do Planalto, o presidente participou de duas reuniões bilaterais: uma com Kast e outra com Paz. Embora reflexo da onda conservadora na região, ambos têm mantido uma relação amigável com o Brasil.
Com o primeiro, Lula disse ter acertado uma visita dos ministros Tomé Franca (Portos e Aeroportos) e Márcio Elias Rosa (Indústria e Comércio) ao Chile “para ampliar parcerias nas áreas de aeronáutica, ciência, defesa e educação”.
Com o segundo, confirmou que a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, vai receber nesta semana, no Rio de Janeiro, uma comitiva ministerial do governo boliviano para acelerar as tratativas para a assinatura de acordos entre a companhia brasileira e a YPFB (Jazidas Petrolíferas Fiscais Bolivianas, na sigla em inglês) na área de extração de gás.
Ao final da cúpula, Peña passou a presidência temporária do bloco ao Uruguai, um dos últimos países com relevância internacional na região liderado pela esquerda.
“Acreditamos que os desafios do nosso tempo exigem mais cooperação, não menos. Mais diálogo, não menos. Mais integração, não menos. Porque dialogar e buscar acordos não significa abandonar convicções”, afirmou o presidente uruguaio ao receber o cargo.




