Recuo dos EUA na Otan faz Europa pensar em defesa própria – 02/07/2026 – Mundo

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A aliança e seu sócio mais difícil

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) completa 77 anos com uma questão que nunca havia sido colocada com tanta urgência: para quê, exatamente, a aliança existe e quem vai pagar por ela?

A resposta vai dominar a cúpula de Ancara, nos dias 7 e 8 de julho, com os 32 países-membros reunidos sob a presidência da Turquia. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, chamou o encontro de “provavelmente o mais importante da história da organização”. Não é exagero.

Desde sua fundação, em 4 de abril de 1949, a Otan atravessou guerras, crises e rupturas. O 11 de setembro, a anexação da Crimeia, a invasão da Ucrânia. Em cada um desses momentos, a aliança foi testada. Mas sempre com os Estados Unidos como âncora inconteste. Agora, pela primeira vez, a âncora vacila.

Trump chegou a admitir publicamente que quase desistiu de ir à cúpula e atribuiu a confirmação de sua presença à insistência pessoal do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. Já deixou claro o que espera dos aliados quando chegar a Ancara: “Eu só quero a lealdade deles.” Leia-se “a submissão deles”.

Os temas na mesa são muitos —e cada um, por si só, teria dominado qualquer reunião anterior:

Gastos em defesa. Na última cúpula, em Haia, os aliados comprometeram-se a destinar pelo menos 5% do PIB à segurança até 2035, sendo 3,5% em gastos estritamente militares. O secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, foi direto: se os aliados não cumprirem as metas, a contribuição americana ao orçamento da Otan vai diminuir.

“A Otan será uma via de mão dupla”, avisou. O impasse chega até Londres: o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, anunciou nesta semana um plano de £15 bilhões (R$ 103,8 bilhões) em investimento militar —mas com um buraco de £4,7 bilhões (R$ 32,52 bilhões) a ser coberto no próximo Orçamento. O premiê vai a Ancara como um dos últimos atos de seu governo. Seu provável sucessor, Andy Burnham, herda a conta.

Retirada americana. Washington propõe reduzir significativamente sua presença militar na Europa, incluindo a retirada de um dos dois grupos de porta-aviões e de todos os submarinos americanos designados à aliança. O Pentágono conduz uma revisão de seis meses com o objetivo declarado: fazer a Europa assumir “a responsabilidade principal pela defesa do continente”.

Ucrânia. O apoio a Kiev permanece na agenda. As principais potências europeias reuniram-se antes da cúpula para tentar chegar a Ancara com posição comum. A promessa de admitir a Ucrânia à Otan “um dia” segue no papel, sem calendário.

Rússia. O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, alertou que Moscou poderia estar “pronta para usar força militar contra a aliança em até cinco anos”. A postura no flanco leste —drones, mísseis, defesa aérea— deve ser ponto central das negociações.

Irã. A guerra com o Irã e o fechamento do estreito de Ormuz estão no pano de fundo, mesmo depois do memorando de entendimento assinado por Trump e Teerã em 18 de junho. O acordo foi saudado por França, Alemanha, Itália e Reino Unido, mas não encerrou as tensões. Trump cobrou “lealdade” dos aliados durante o conflito —e nem todos ofereceram. A Itália recusou-se a permitir o reabastecimento de aviões americanos na Sicília durante os bombardeios, e o atrito virou público no G7: Trump afirmou que a primeira-ministra Giorgia Meloni teria “implorado” por uma foto; ela chamou a versão de “completamente inventada”. O encontro dos dois em Ancara, onde todos os 32 chefes de Estado e de governo da Otan devem estar presentes, será um dos mais observados da cúpula.

O dilema europeu é real e não tem solução rápida. Décadas de dependência americana em defesa não se desfazem em um ou dois orçamentos. Construir capacidade industrial, doutrina própria e autonomia operacional leva anos e os europeus sabem que o tempo pode ser exatamente o que falta.

A Europa não pode prescindir dos Estados Unidos hoje. Sabe que precisará aprender a prescindir no futuro. E está tentando fazer isso enquanto uma guerra acontece a menos de duas horas de avião de Varsóvia.

O preço do silêncio

Liberdade de imprensa não é pauta de jornalista. É condição de existência da democracia. Foi com essa pauta que o Project Syndicate, plataforma de análise e opinião que reúne economistas, intelectuais e líderes de opinião de dezenas de países, reuniu no Quai d’Orsay em Paris, em 30 de junho, jornalistas e pensadores europeus para debater uma das questões mais urgentes do continente: a democracia está sob ataque, e a imprensa independente é a primeira linha de defesa.

As ameaças são múltiplas e simultâneas. A desinformação financiada pelo Kremlin corrói a confiança nas instituições. Os regimes populistas que chegaram ao poder pela via eleitoral —democratorships (mostrengo resultante da fusão de democracy e dictatorship, ou, “democraturas”)— desmontaram de dentro para fora os freios e contrapesos que sustentam o Estado de direito. A Hungria foi o caso mais citado. E a disrupção do modelo de negócios da imprensa, acelerada pela inteligência artificial, fragiliza ainda mais os veículos independentes num momento em que eles são mais necessários do que nunca.

Entre as vozes presentes estava Adam Michnik, editor-chefe da Gazeta Wyborcza, o maior jornal independente da Polônia, figura histórica que foi preso pelo regime comunista, ajudou a construir o movimento Solidariedade e fundou o jornal em 1989, no alvorecer da democracia polonesa.

No encontro, Michnik foi direto: “Temos de fazer tudo para deixar os inimigos da democracia desconfortáveis”, referindo-se às “democracias iliberais”, a Putin e aos que usam as regras da democracia para destruí-la por dentro. “Somos todos ucranianos.”


Frase da Semana



Temos de fazer tudo para deixar os inimigos da democracia desconfortáveis


A canícula não dá trégua

A França ainda contabiliza os mortos da última onda de calor, cerca de 1.000 mortes acima da média histórica para o período, segundo avaliação inicial da Saúde Pública Francesa.

O fenômeno não poupou o restante do continente: Alemanha, Bélgica e Holanda também registraram temperaturas excepcionais nas últimas semanas.

E a trégua pode ser curta. As agências meteorológicas preveem novas ondas de ar quente vindas do Saara já para a semana de 6 a 13 de julho, com o sul da França entre as regiões mais vulneráveis, embora a intensidade e o momento exato ainda sejam incertos.

Entre 1980 e 2021, eventos climáticos extremos causaram 195.000 mortes e €560 bilhões em perdas econômicas na União Europeia. O verão europeu deixou de ser estação e virou problema de gestão pública.

No Radar

O que monitorar até a próxima quinta-feira

  • Le Pen e 2027 — No dia 7 de julho, o tribunal de apelação de Paris decide se mantém a condenação de Marine Le Pen por desvio de verbas públicas e, com ela, a inelegibilidade que a impede de concorrer à presidência da França em 2027. Se a pena for confirmada, o Reunião Nacional (RN) terá de ativar o plano B: Jordan Bardella, atual presidente do partido e herdeiro político de Le Pen, como candidato. A decisão redefine o tabuleiro eleitoral francês —com ou sem ela.
  • Cúpula da Otan em Ancara — Nos dias 7 e 8 de julho, os 32 chefes de Estado e de governo da aliança se reúnem na Turquia. Gastos em defesa, retirada americana e apoio à Ucrânia dominam a agenda.
  • Canícula — As agências meteorológicas preveem novas ondas de calor vindas do Saara a partir de 6 de julho, com possível retorno do calor extremo até 14 de julho, especialmente no sul da França.
  • Copa do Mundo — As quartas de final acontecem entre 9 e 11 de julho, nos Estados Unidos. O Brasil segue vivo. Aqui na França, há cada vez mais otimismo com as perspectivas dos les Bleus.

Fora da Pauta

O Crepúsculo da Democracia (Editora Record, 2021), de Anne Applebaum

Jornalista e historiadora americana, Applebaum analisa por que intelectuais e políticos criados dentro das democracias liberais passaram a abraçar o autoritarismo. Hungria, Polônia e Grã-Bretanha são os casos centrais. A tese é incômoda: dadas as condições certas, qualquer sociedade pode virar as costas para a democracia.



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