A volta do fujimorismo – 05/07/2026 – Bianca Santana

A volta do fujimorismo - 05/07/2026 - Bianca Santana


Vinte e seis anos depois do fim da ditadura de Alberto Fujimori, seu projeto político e sobrenome voltam à Presidência do Peru. Na última sexta-feira (4), a justiça eleitoral oficializou a vitória de Keiko Fujimori, com 50,135% dos votos, contra Roberto Sánchez, que teve 49,865%.

Depois de três derrotas consecutivas, a líder do partido Força Popular venceu sua quarta disputa presidencial por cerca de 50 mil votos em um universo de 18 milhões.

Nas disputas anteriores, Keiko perdeu em margens também estreitas e foi se consolidando como principal nome do fujimorismo.

Aos 19 anos, Keiko assumiu as funções de primeira-dama depois que sua mãe, Susana Higuchi, se divorciou do pai com acusações de violência e corrupção. Estudou administração de empresas nos Estados Unidos, foi eleita deputada em 2006 com a maior votação da história do país e, em 2010, fundou o partido que depois se tornaria o Força Popular. Sua trajetória política sempre evocou o legado do pai.

Alberto Fujimori governou o Peru de 1990 a 2000. Em abril de 1992, em um autogolpe, fechou o Congresso, suspendeu a Constituição e concentrou poderes no Executivo.

Seu governo ficou marcado por violações de direitos humanos, como os massacres de Barrios Altos e La Cantuta, quando um esquadrão da morte ligado ao Estado executou moradores e estudantes. Pelos homicídios e sequestros relacionados a esses casos, Fujimori foi condenado a 25 anos de prisão.

Seus apoiadores atribuem a ele a estabilização da economia depois da hiperinflação dos anos 1980 e o enfraquecimento do Sendero Luminoso, grupo guerrilheiro maoísta.

Depois de deixar a Presidência em 2000, Alberto Fujimori foi preso no Chile em 2005, extraditado ao Peru em 2007 e condenado, em 2009. Morreu em 2024.

A condenação, a prisão e a morte de Alberto Fujimori não encerraram o fujimorismo. O movimento manteve representação no Congresso, estrutura partidária e competitividade eleitoral ao longo de mais de duas décadas. A eleição de Keiko Fujimori é a atual vitória dessa continuidade.

Para alguns analistas, a eleição de Keiko também expressa o desgaste institucional vivido pelo Peru. Desde 2016, o país teve dez presidentes, entre titulares e interinos, sucessivas crises entre executivo e legislativo, presidentes destituídos, investigações de corrupção e protestos que deixaram dezenas de mortos.

Nesse contexto de instabilidade, o fujimorismo volta ao governo com uma campanha que enfatizou segurança pública, combate ao crime, crescimento econômico e estabilidade institucional.

Para uma parcela do eleitorado é a volta do projeto autoritário desejado. Certamente para outra parcela, crítica do autoritarismo, as promessas de ordem foram mais importantes que a memória da violência do Estado.

Para o Brasil, é necessária especial atenção à eleição que recoloca uma família no poder, confirmando que um projeto político condenado na Justiça atravessou o fim do governo de origem, a condenação e a morte do fundador, além de mais de duas décadas de derrotas eleitorais, como uma das principais forças políticas do Peru.


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Fonte CNN BRASIL

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