O FBI está designando um exército de 260 analistas investigativos para uma apuração “prioritária” relacionada à eleição de 2020 no condado de Fulton, na Geórgia, um reflexo da pressão contínua do presidente Donald Trump para provar suas acusações infundadas de que a eleição de 2020 ali foi fraudada.
O esforço está descrito em um memorando interno obtido pelo The New York Times e confirmado por uma pessoa familiarizada com a investigação. O memorando afirma que a mobilização faz parte de um esforço “prioritário” do diretor do FBI, Kash Patel.
Os analistas trabalharão para concluir “aproximadamente 708 verificações de registros”, de acordo com o memorando. O tipo de registros sendo verificados é desconhecido.
O deslocamento de um número tão grande de funcionários do FBI para o condado mais populoso da Geórgia ocorre em meio à investigação criminal em andamento do Departamento de Justiça sobre a eleição de 2020 no estado. Em janeiro, o FBI fez uma operação em um depósito eleitoral em Fulton, apreendendo mais de 600 caixas de materiais eleitorais —incluindo cédulas originais da eleição de 2020.
Mas uma declaração juramentada tornada pública, que foi usada para obter o mandado de busca para essa operação, baseou-se fortemente em acusações desmentidas sobre anomalias nas cédulas de 2020.
Essas acusações foram revividas dentro da Casa Branca por Kurt Olsen, um negacionista eleitoral que trabalha no governo Trump e que deu início à investigação atual, de acordo com a declaração juramentada.
Poucas disputas presidenciais na história moderna dos EUA foram tão minuciosamente investigadas quanto a eleição de 2020.
Ao longo de mais de cinco anos, todas as teorias conspiratórias de Trump e seus aliados —incluindo acusações falsas sobre trabalhadores eleitorais, votos por correio e máquinas de votação— foram investigadas e desmentidas por autoridades eleitorais de ambos os partidos políticos e, em muitos casos, por membros do Congresso, juízes e autoridades policiais.
Isso não impediu Trump ou seus aliados de continuarem tentando provar suas muitas acusações infundadas. No processo, eles semearam dúvidas e desconfiança nas eleições americanas e pediram a aprovação de uma legislação eleitoral federal conhecida como SAVE America, que defensores do direito ao voto dizem que dificultaria o voto de muitos americanos.
Um porta-voz do FBI e autoridades do condado de Fulton não responderam aos pedidos de comentário.
A mobilização atraiu críticas de autoridades locais e federais. Robb Pitts, presidente da Comissão do Condado de Fulton, disse que não conseguia imaginar o que o FBI poderia estar fazendo.
“Não faço ideia, nem fui notificado sobre nada disso”, disse Pitts. “Eles têm esses documentos desde a noite de 28 de janeiro. E presumivelmente eles não ficaram apenas guardados em um armário em algum lugar. Então tenho que presumir que foram examinados.”
Pitts descreveu a ação do FBI como uma “cartada desesperada” para manter viva uma investigação falsa, embora não soubesse o que estava sendo buscado.
O senador Mark Warner, principal membro democrata do Comitê de Inteligência do Senado, criticou a mobilização. “Se esses relatos são precisos, eles levantam sérias questões sobre se o FBI está desviando recursos extraordinários para processar acusações sobre a eleição de 2020 que já foram repetidamente examinadas e rejeitadas por tribunais, autoridades eleitorais e investigações bipartidárias”, disse Warner em um comunicado. “Politizar a aplicação da lei federal a serviço de relitigar uma eleição já resolvida corre o risco de erodir a confiança pública e lançar uma sombra sobre a integridade das eleições de 2026 antes mesmo de um único voto ser depositado.”
E Brad Raffensperger, o secretário de Estado republicano da Geórgia, emitiu um comunicado dizendo que as eleições ali são seguras. “A Geórgia realiza as eleições mais seguras do país, e nosso escritório está pronto para auxiliar as autoridades policiais em qualquer investigação que tranquilize os georgianos de que seus votos são depositados com segurança e contados com precisão”, disse ele.
O memorando, divulgado primeiro pela MSNOW, tinha um tom urgente, indicando a importância da investigação para o governo, e observou que “horas extras (incluindo fins de semana e feriados) foram autorizadas” e que “todas as verificações de registros precisam ser concluídas” até 17 de julho.
O memorando também disse que o escritório regional do FBI em Atlanta “forneceria treinamento” para a operação. Os designados para o caso são analistas investigativos, que são especialistas em verificações de registros e não agentes especiais.
Um ex-alto funcionário do FBI não conseguiu se lembrar de uma mobilização investigativa dessa magnitude ocorrendo anteriormente fora de um posto de comando permanente em torno de um evento como uma eleição ou posse ou um grande episódio violento, como um ataque terrorista.
Em casos federais típicos, mobilizações exigiriam cerca de cinco a dez analistas, disse o ex-funcionário.
A mobilização ocorre após meses de inatividade na investigação, pelo menos publicamente. Nenhuma acusação criminal resultou da operação, e o FBI não ofereceu nenhuma atualização pública sobre a investigação. Um juiz estadual em fevereiro emitiu decisões breves que deixaram clara sua frustração com a apreensão em janeiro.
“Resta-nos esperar que a corporação e o Departamento de Justiça manuseiem as cédulas e registros relacionados com o cuidado necessário para preservar e proteger sua integridade”, escreveu o juiz Robert C.I. McBurney, do Tribunal Superior do Condado de Fulton, em uma decisão.
Em maio, o Departamento de Justiça exigiu as identidades de todos os trabalhadores que atuaram na eleição de 2020 em Fulton, de acordo com registros judiciais. O condado rapidamente entrou com uma moção para anular essas exigências. O juiz do caso concordou em bloquear temporariamente o pedido, enquanto o litígio continua.




