Enquanto os líderes da Otan se dirigem para a sua cúpula em Ancara, levando a atenção dos jornalistas com eles, uma estranha farsa decorre aqui. Estamos na maior prisão da Europa, rodeada por quartéis e tribunais. Entre os muitos presos políticos, o mais famoso é o prefeito democraticamente eleito de Istambul, Ekrem Imamoglu, que hoje se apresenta a um tribunal para se defender de três casos sucessivamente.
Muitas centenas de pessoas tentam entrar para assistir ao julgamento. A polícia de choque está posicionada para qualquer eventualidade. Entre as poucas dezenas que conseguem entrar estamos nós, parte de uma delegação de observadores internacionais que inclui o relator do Parlamento Europeu para a Turquia, Nacho Sánchez Amor, o ex-prefeito de Reykjavik e deputado social-democrata islandês Dagur Eggertsson, e eu, que estou em representação do Partido Verde Europeu.
Lá dentro encontramos a família de Imamoglu, seus aliados políticos, e representantes diplomáticos de vários países. Os corredores são estreitos para tanta gente; somos empurrados enquanto tentamos acessar uma sala onde irá decorrer um julgamento por “espionagem” do qual, por “segredos de Estado”, não se sabe praticamente nada, nem qual seria a dita espionagem, nem a favor de que país. Outro julgamento, supostamente por corrupção, fica para depois.
Deixam-nos finalmente entrar no mais importante e consequente dos três casos, que paradoxalmente é sobre a que aparenta ser a menos relevante das causas: a anulação do diploma universitário de Imamoglu. Mas as aparências enganam; sem diploma, a lei turca não permite que Imamoglu seja candidato à Presidência da República —o que vem a calhar, porque as sondagens eram unânimes em considerar que em eleições livres e justas Imamoglu derrotaria Recep Tayyip Erdogan, que está no poder (como premiê ou presidente) desde 2003.
E quando Imamoglu entra e lhe é permitido falar, sorridente apesar dos muitos meses de prisão, é rápido a identificar que esse é o seu único verdadeiro crime: o de poder derrotar o cada vez mais autoritário Erdogan. Fala durante uma hora, defendendo-se da acusação com tranquilidade, sem precisar recorrer aos seus advogados de defesa.
No fim, o promotor e o juiz falam: o julgamento está adiado até ao fim do ano, e Imamoglu continuará preso. Mas enquanto o ouço fico convencido de que o regime cometeu um erro. Ter um adversário a defender-se brilhantemente de três casos em simultâneo fará de Imamoglu uma lenda. Parece-me até inevitável que fará dele presidente.
Deixo o gravador ligado. A certa altura, apanho a seguinte frase de Imamoglu que deixo aqui sem retoques:
“A justiça é um alicerce invisível sobre o qual o lojista que abre a sua loja de manhã, a mãe que manda o filho para a escola, o reformado que trabalhou toda a vida apenas para poder se alimentar e o jovem que conquista um diploma depois de passar num exame com o suor do seu trabalho, todos, sem saber, se apoiam todos os dias. Justiça é existência.”
É justo que ele tenha a última palavra.




