Multidão se despede de Khamenei em Teerã pedindo vingança – 08/07/2026 – Mundo

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Às 6h, o ar de Teerã exalava calor. O túnel da estação de metrô levava uma maré humana que buscava desesperadamente chegar ao seu destino: a praça Enghelab, um dos locais por onde passaria o cortejo fúnebre do aiatolá Ali Khamenei.

Peguei o metrô quando já não havia mais assentos, e o vagão se vestia de preto. Na aglomeração —uniforme à distância—, havia fissuras facilmente reconhecíveis: entre chadores idênticos (vestimenta tradicional feminina), viajavam também três mulheres com os cabelos descobertos e vestidas fora do código seguido pelas demais.

Milhares de pessoas lotaram a rede de metrô de Teerã nesta terça-feira (7). Oito estações foram fechadas por saturação e, em cada parada, subia mais gente do que descia.

Descemos às centenas na plataforma da Universidade Sharif, empurrados em direção à praça Enghelab pela multidão. Desde o primeiro degrau em direção à superfície, o cheiro me devolveu a outros países próximos, a outras despedidas e à mistura de água de rosas e suor.

Na avenida Enghelab —ou da Revolução—, que começa na praça Imã Hussein e de onde partiu o cortejo fúnebre, caminhei no mesmo sentido em que marchou em 1979 a multidão que impôs esse nome ao que antes se chamava Xá Reza. A Universidade de Teerã e as livrarias mais antigas do país ocupam esta rua, que viu mais marchas do que qualquer outra na cidade.

O asfalto queimava através das solas dos sapatos, e não havia sombra suficiente para as milhares de pessoas que, apertadas ombro a ombro, esperavam o caixão coberto de veludo verde e preto. Mas quando a caminhada se acelerava, garrafas de água passavam de mão em mão, e sucos gelados e doces eram distribuídos.

Quando aceitei minha primeira garrafa de água, reconheci o modelo de organização deste funeral, porque já o vivenciei três vezes antes entre as cidades iraquianas de Najaf e Karbala. O funeral de Khamenei tomou emprestada a cultura de serviço husseiní, com centenas de “mokebs” —postos de alimentos, bebidas e descanso— instalados em todo o percurso do cortejo fúnebre.

É o mesmo sistema que dá suporte aos participantes da peregrinação de Arbaeen —40, em árabe —, que celebra o imã Hussein, neto do profeta Maomé, decapitado no ano 680 por se recusar a jurar lealdade a um poder que considerava ilegítimo.

Por isso, quando recebiam as provisões, as pessoas gritavam algo que eu havia ouvido em outra oportunidade: mas “Yalasarat al-Hussein” se tornou “Yalasarat al-Khamenei”. O grito ritual que pede a vingança pelo imã Hussein agora significa para os muçulmanos xiitas que a morte do aiatolá Khamenei fica inscrita na cadeia histórica de sangue não vingado. A mesma estrutura gramatical religiosa com 14 séculos de distância.

O percurso cruzou a praça Enghelab, que não é um lugar qualquer: onde se acabou com 25 séculos de monarquia, há 47 anos, e que continua sendo o termômetro de Teerã quatro meses após o início da guerra.

Agora, em uma de suas esquinas, há um mural gigante que mostra o líder assassinado com a mão erguida em gesto de saudação, ladeado por cenas de outra época: combatentes com o punho cerrado entre a poeira e outros clérigos com o mesmo gesto.

A marcha seguiu pela avenida Valiasr, que, com 18 quilômetros de plátanos orientais plantados em 1939, tornou-se a alameda mais longa da capital iraniana. Atualmente restam poucas árvores originais, dizimadas pela poluição e pelo cimento, mas as que sobreviveram proveem a única sombra de todo o trajeto.

Esta via se chamava anteriormente avenida Pahlevi, depois Mosadeq e, desde 1981, leva o nome do 12º imã que os xiitas aguardam. Em seu cruzamento com a avenida Enghelab, a artéria muda de nome e se torna avenida Azadi —liberdade, em persa— e corre até a praça mais fotografada do Irã.

A poucos metros de se tornar a avenida Azadi, um caminhão-pipa azul e branco que distribuía garrafas de água se misturou na multidão. Na sua traseira, havia a imagem de Cristo crucificado, algo que pareceu não surpreender ninguém: a convivência religiosa entre cristãos, judeus, muçulmanos e zoroastrista —entre outras confissões— vem de longa data no Irã.

No caminho, bombeiros e membros da defesa civil borrifavam a multidão com mangueiras e aspersores, as ambulâncias faziam plantão nas esquinas, e motociclistas em suas scooters avançavam a toda velocidade em diferentes direções para escapar do sol intenso.

Perto de uma zona de distribuição de bebidas, um pai segurava nos braços sua filha de meses. A menina, vestida inteiramente de preto e com um turbante cobrindo toda a sua cabeça, olhava ao redor com os olhos bem abertos, vestida para um luto que não escolheu.

Enfim, Azadi. A avenida se abre entre blocos de habitação soviéticos de outra era, gastos pelo sol, com varandas idênticas.

Dez quilômetros separam a praça Imã Hussein da emblemática torre Azadi. A comitiva levou cerca de dez horas para percorrê-los. Em um trecho, o cortejo que levava o caixão de Ali Khamenei e quatro de seus familiares assassinados junto com ele —entre eles sua neta de 14 meses— avançou mil metros em duas horas e meia. A multidão, literalmente, não deixava o veículo passar sem antes tocá-lo ou gritar seu nome.

Até chegar aos cortejos que só se encerrarão nesta quinta-feira (9), o corpo de Khamenei foi custodiado sem sepultura durante quatro meses, segundo o regime. A tradição xiita exige rapidez, sem embalsamamento, mas a contenda que se seguiu ao ataque impôs seu próprio ritmo.

No xiismo, morrer dessa forma não admite o binômio de derrota ou triunfo: é martírio. Por isso um funeral de Estado pode se vestir, sem contradição, de luto e de desafio ao mesmo tempo.

Vestidos de preto, batendo no peito, os enlutados portavam bandeiras vermelhas e cartazes onde se lia, em persa e em inglês, uma frase curta e afiada: haverá sangue.

Não era somente dor. Era também uma declaração em um momento em que as negociações abertas após o memorando assinado com mediação do Paquistão seguem, ainda, sem se converter em uma paz assinada.

Não se trata apenas de um luto religioso, é também a arquitetura de alianças. A mensagem viaja também para os mercados: qualquer ruptura da trégua no estreito de Hormuz —por onde transitava 20% do petróleo mundial antes da guerra— faz disparar o preço do barril muito além desta região.

A cerimônia é, ao mesmo tempo, luto e carta de negociação. Nenhum funeral de Estado é organizado apenas para chorar.



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