Prever o resultado da final de domingo (19) é esforço vão, mesmo se baseado em estatísticas, nesta Copa de surpresas. Mas há previsões fáceis de fazer, e acertamos nós que prognosticamos um súbito interesse por turismo em Cabo Verde. Bingo!
O site Expedia registrou um salto de 800% nas buscas por viagens a Cabo Verde só entre internautas americanos, muitos confusos porque Vozinha não se traduz como “voz pequena” em inglês. A Cabo Verde Airlines não perdeu tempo e dobrou a frequência do voo semanal, de quatro horas, que parte do Recife.
Vejamos o caso da melhor seleção dos EUA a disputar um Mundial. O talentoso atacante Folarin Balogun nasceu no bairro nova-iorquino do Brooklyn, de pais nigerianos. Imaginem o encanto de um ídolo esportivo iorubá quando os republicanos ainda tentam extinguir o direito, garantido pela Constituição, que lhe deu a cidadania americana e uma vaga na seleção.
Balogun partiu de volta para a relativa obscuridade do AS Monaco, atropelado pela marmelada imperial decidida por um telefonema de Donald Trump a Gianni Infantino, exigindo a anulação do cartão vermelho (sim, excessivo) que recebeu jogando contra a Bósnia e Herzegovina.
É difícil prever se Gianni Infantino vai cumprir a promessa (ameaça?) de aumentar o número de seleções de 48 para 64. Ao presidente da Fifa, que se conduz com a sobriedade de um trombadinha do centro do Rio de Janeiro, podemos dar, ao menos, o crédito por ter ampliado a Copa do Mundo como um evento que descortina, para uma plateia global, temas como migração, identidade e poder colonial e imperial.
Confesso alguma surpresa pela intensidade do rancor que precedeu Argentina x Inglaterra, 44 anos depois da invasão quixotesca das Ilhas Malvinas. O general Leopoldo Galtieri não descartou a vida de 649 soldados argentinos por sentimento anti-imperialista, mas para distrair o descontentamento com a incompetência da ditadura militar. Acabou por prolongar o reino de Margaret Thatcher, que, antes da invasão, era detestada pela esmagadora maioria dos britânicos.
E há usina humana de simpatia maior que Erling Haaland? O gigante do Manchester City fez da Noruega o país mais admirado deste torneio e, mesmo após a derrota, acumula uma devoção nas redes sociais que se destaca não pelo egotismo ganancioso de influenciadores habituais, mas por se revelar um ser humano decente, pai e companheiro amoroso, generoso com os torcedores mirins. Nunca imaginei que passaria 5 minutos vendo Haaland grelhar bifes para comer com a Isabel.
É difícil a agência de turismo da Noruega produzir uma campanha mais rentável que a simples exposição de seu principal atacante ao mundo. E o que pensaram os executivos da Nike, depois de gastar US$ 20 milhões em contratos de publicidade com o jogador, quando ele desembarcou do avião em Oslo carregando um guaxinim empalhado que acompanha uma garrafa de uísque de US$ 700? Com o marketing gratuito, a loja que vende o uísque em Dallas, um negócio familiar, foi invadida por pedidos do mundo inteiro e há motivo para temer pela vida de guaxinins incautos no Texas.
Não é coincidência o romance multinacional com Haaland e o geralmente virtuoso país que ele representa. Quem não está exausto desse presente de oligarcas e governantes que usam a crueldade como emblema orgulhoso?




