O ex-líder da extinta guerrilha das Farc afirmou à agência de notícias AFP que discursos de ódio podem estimular novos episódios de violência no país após o presidente eleito da Colômbia ameaçar prendê-lo e revogar um dos principais pilares do histórico acordo de paz firmado em 2016.
Rodrigo Londoño, mais conhecido pelo nome de guerra “Timochenko”, disse que um grupo de ex-comandantes da guerrilha enviou uma carta ao presidente eleito, o ultradireitista Abelardo de la Espriella, para reconhecer sua vitória nas urnas e propor um diálogo com o objetivo de preservar o acordo, que completa dez anos em novembro deste ano.
Após a assinatura do acordo de paz durante o governo de Juan Manuel Santos (2010–2018), laureado com o Nobel da Paz, cerca de 13 mil integrantes das Farc depuseram as armas e iniciaram um processo de reintegração à vida civil.
De la Espriella, político de ultradireita que derrotou o candidato governista de esquerda, Iván Cepeda, é um crítico declarado do acordo. Entre suas propostas está o desmonte da Jurisdição Especial para a Paz (JEP), tribunal criado pelo pacto para julgar crimes cometidos durante o conflito e que prevê penas alternativas à prisão para ex-guerrilheiros e militares que contribuam para o esclarecimento da verdade.
No ano passado, Londoño foi condenado pela JEP a oito anos de trabalhos comunitários como forma de reparação pelos mais de 21 mil sequestros atribuídos às Farc.
Em vídeo divulgado na segunda-feira (13), o presidente eleito chamou Timochenko de bandido e disse que ele “merece ficar preso pelo resto da vida”. Na mesma declaração, classificou o ex-comandante guerrilheiro de um “criminoso de guerra” e descreveu a JEP como um “disfarce de tribunal”.
De la Espriella também prometeu encerrar as negociações conduzidas pelo governo do esquerdista Gustavo Petro com grupos dissidentes das Farc e intensificar a ofensiva militar contra guerrilhas envolvidas com o narcotráfico, incluindo com o uso de bombardeios.
O presidente eleito sustenta ainda que as penas impostas pelo sistema de justiça transicional aos ex-guerrilheiros são brandas, especialmente quando comparadas às condenações aplicadas a integrantes das forças de segurança processados por execuções extrajudiciais.
Durante um evento para marcar os dez anos do acordo de paz, Londoño afirmou à AFP que os signatários do tratado têm sido alvo constante de estigmatização e de discursos de ódio.
“Há pessoas com tribunas privilegiadas lançando essas mensagens e isso é extremamente perigoso […]. É muito importante baixar o volume dessas mensagens de ódio”, afirmou.
Desde a assinatura do acordo, 492 ex-guerrilheiros que firmaram a paz foram assassinados, segundo a Missão de Verificação da ONU.
Na terça-feira (14), Londoño e outros seis líderes históricos da guerrilha, entre eles Pastor Alape, Pablo Catatumbo e Julián Gallo, enviaram uma carta a De la Espriella na qual ratificaram seu “compromisso inabalável de honrar” o tratado.
“Esperamos que o Estado colombiano responda ao compromisso assumido com a mesma honradez”, acrescenta o texto.
“Acredito que o diálogo é fundamental para conquistar a paz, para a forma como nós, seres humanos, nos entendemos”, disse Londoño à AFP. “A sociedade colombiana já amadureceu muito e podemos nos entender e levar a Colômbia adiante, como todos queremos, construindo a partir das nossas diferenças.”
Para desmantelar a JEP é necessária uma reforma constitucional que tem de ser aprovada pelo novo Congresso, que tomará posse na próxima semana e no qual o partido do ultradireitista tem representação minoritária.



