De repente, o céu ficou laranja; o ar, difícil de respirar ou mesmo insalubre; e a visão, turva. Então, chegou a recomendação de diversas autoridades: se puder, não saia de casa; se sair, use máscaras.
A densa fumaça oriunda de incêndios florestais no vizinho Canadá, combinada com uma onda de calor que dificulta que as partículas se dissipem, disparou um alerta de saúde pública em regiões do nordeste dos Estados Unidos.
Desde a tarde de quarta-feira (15), ao longo desta quinta (16) e, potencialmente, no decorrer da sexta (17), cidades importantes como Chicago, Detroit, Minneapolis e Nova York estão operacionalizando planos de emergência para mitigar os efeitos na população.
Nas três primeiras, o indicador nacional de qualidade do ar apontava para um índice perigoso. A escala mede a presença de ozônio, poluição por partículas, monóxido de carbono, enxofre e dióxido de nitrogênio; ela começa em 0 e, a partir de 301 pontos, a qualidade do ar é considerada a pior possível. Chicago, nesta quinta-feira, apresentava índice superior a 540.
A OMS (Organização Mundial da Saúde) explica que as partículas inaláveis finas (ou MP2,5) vindas de incêndios florestais estão associadas a mortes prematuras e podem causar ou agravar doenças que afetam pulmões, coração, cérebro, pele, intestino, rins, olhos, nariz e fígado —especialmente quando a exposição é prolongada.
O nordeste do país já estava imerso em uma onda de calor, com temperaturas ultrapassando os 30°C —o que já tinha levado a alertas das autoridades. Essa junção dificultou a dissipação da fumaça na região e agravou as condições de saúde pública.
Na cidade de Nova York, o prefeito, Zohran Mamdani, pediu que as pessoas evitem sair de casa. “Deixem-me ser claro: no nível que estamos [de qualidade do ar], todos, não apenas aqueles com asma, problemas cardíacos ou mais velhos, todos podemos sentir efeitos na saúde”, afirmou, em pronunciamento. “Portanto, todos devem tomar precauções. Limitem seu tempo fora de casa.”
A prefeitura distribuiu máscaras N95 (PFF2 na nomenclatura brasileira), de uso profissional. O item está disponível em bibliotecas, delegacias de polícia e instituições de saúde. O mesmo foi feito por outras administrações, como a prefeitura de Newark, uma das cidades mais importantes do estado vizinho de Nova Jersey.
A onda de calor já havia levado a medidas emergenciais. A Prefeitura de Nova York abriu 600 dos chamados “centros de resfriamento” —locais com ar condicionado para os quais os cidadãos podem ir caso não consigam resfriar seus próprios lares.
Diante da fumaça dos incêndios, a orientação é que aqueles que não possuem o aparelho em casa sigam buscando um dos centros. Mas que os que o possuem não saiam, se possível, e também chequem a situação de seus vizinhos, em especial os idosos.
Os EUA estão em plenas férias escolares, de modo que mais famílias estão nas ruas, em espaços públicos, para o lazer de crianças e adolescentes. Essa dinâmica também é alterada. Em Chicago, por exemplo, as autoridades fecharam o acesso às praias e piscinas públicas.
Neste fim de semana, a Região Metropolitana de Nova York sedia a final da Copa do Mundo, com a disputa entre as seleções da Espanha e da Argentina no domingo (19). A previsão é de que, até lá, a fumaça já tenha se movido, mas a onda de calor deve persistir.
O Canadá registra incêndios florestais todos os anos, geralmente entre os meses de maio e outubro. E, à medida que o aquecimento global eleva as temperaturas e multiplica as ondas de calor, a frequência de dias em que o ar está quente e poluído tem aumentado. O céu do nordeste dos EUA se tornou mais um alerta sobre a crise do clima.
Alguns politicos do Partido Republicano buscam usar o tema para criticar o governo do Canadá —que, lembre-se, tem se distanciado de sua aliança histórica com os EUA.
O senador Bernie Moreno, de Ohio, afirmou que “pautará um projeto de lei para sancionar o Canadá e as autoridades do governo canadense responsáveis por essa atrocidade”, referindo-se ao impacto da fumaça. Lisa McClain, deputada republicana por Michigan, também abordou o tema: “ANO APÓS ANO a fumaça cruza a fronteira enquanto o Canadá não faz nada”, escreveu. “Parem de exportar sua fumaça para os nossos céus.”




