Após forte reação da comunidade internacional, o regime de Daniel Ortega anunciou nesta segunda-feira (27) que vai adiar o plano de acabar com eleições na Nicarágua. O ditador havia dito no último dia 19 que “não haverá mais eleições aqui para que eles possam tentar tomar o governo, tomar o poder”, em referência ao que chama de “partidos políticos criados pelos ianques”.
Em nota a um veículo de imprensa controlado pelo regime, Rosario Murillo, esposa de Ortega que divide o controle do regime com o marido, disse que a Assembleia Nacional vai iniciar um “processo de consulta” para votação da medida em setembro. A votação do projeto estava prevista originalmente para agosto.
De acordo com Murillo, “concluído o processo de consulta, a comissão especial elaborará o parecer correspondente para sua apresentação perante o plenário com o objetivo de aprovar a reforma constitucional nos primeiros dias” do mês de setembro.
A líder afirmou ainda que a iniciativa foi apresentada nesta segunda ao corpo diplomático e que o processo de consulta abrangerá vários setores. “Estamos aguardando conhecer os resultados deste primeiro encontro respeitoso e amistoso com a comunidade diplomática”, acrescentou.
Formalmente, a reforma constitucional busca excluir das eleições os partidos de oposição. A medida causou grande rejeição da comunidade internacional.
As Nações Unidas condenaram a fala de Ortega, dizendo que “pessoas de todos os espectros políticos devem ter o direito de votar e concorrer a cargos públicos, como determinam as obrigações internacionais de direitos humanos da Nicarágua“, nas palavras do alto comissário para Direitos Humanos, Volker Türk.
“O espaço cívico na Nicarágua está quase completamente fechado”, afirmou Türk, dizendo que advogados estão perdendo suas inscrições e direito de advogar “sem motivo ou explicação oficial”. “A expressão independente de opinião é reprimida sistemáticamente”, disse o comissário, pedindo que Manágua liberte os cerca de 50 presos políticos no país.
O governo Lula (PT) também criticou a decisão de Ortega. Em nota, o Itamaraty disse que “a realização de eleições livres, periódicas, plurais e transparentes é um dos esteios da democracia, valor com que o Brasil tem um profundo compromisso”. O governo brasileiro pediu ainda que as autoridades da Nicarágua “assegurem ao povo nicaraguense o livre exercício do direito soberano de escolha dos seus governantes.”
Já os Estados Unidos pediram que a comunidade internacional isole o regime de Ortega como resposta à medida. Para Marco Rubio, secretário de Estado do governo Donald Trump, a fala do ditador “escancara o caráter autoritário da Nicarágua” e que o regime “abandonou qualquer fachada” de legalidade.




