EUA: Governo Trump oferece testosterona para soldados – 28/07/2026 – Mundo

EUA: Governo Trump oferece testosterona para soldados - 28/07/2026 -


O governo de Donald Trump denunciou os bloqueadores de puberdade e a terapia hormonal para menores transgênero como “mutilação química”. Nos últimos dias, deixou claro que não tem tais escrúpulos quanto a injetar testosterona em soldados americanos.

Parlamentares liberais e veteranos militares aproveitaram essa contradição quando o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, anunciou que militares americanos com 30 anos ou mais que apresentassem níveis baixos de “T” receberiam oferta de terapia de reposição de testosterona (TRT).

“Pete Hegseth se declara a favor de cuidados de afirmação de gênero”, escreveu Adam Schiff, senador democrata pela Califórnia, no X.

Os críticos de Hegseth retrataram a iniciativa de TRT como uma ilustração perfeita da fixação do movimento Maga (Make America Great Again, em inglês) com virilidade e otimização corporal, e sua crença de que a expressão de gênero deve ser estritamente binária.

Críticos culturais há muito observam a predileção do mundo Trump por homens musculosos e prontos para os holofotes e mulheres glamorosas, hiperfemininas, com intervenções estéticas inconfundíveis.

Eles ridicularizaram o “rosto Mar-a-Lago“, um visual sinônimo de preenchimentos, botox e facetas ultrabranqueadas. Na visão deles, a defesa de Hegseth de guerreiros com “T alto” é a mais recente manifestação da estética Maga.

“É gênero como performance”, disse Juliet Williams, professora de estudos de gênero na UCLA. “É completamente caricato.”

Mas a iniciativa de Hegseth também reflete a nova masculinidade agressiva que se infiltrou na política de direita a partir da chamada “machosfera”, a extensa rede de influenciadores online cujo apoio a Trump foi visto como um fator crucial em sua vitória eleitoral de 2024.

É um mundo impregnado de testosterona, como evidenciado pelo documentário de 2022 do astro da mídia de direita Tucker Carlson, “The End of Men” (o fim dos homens), que apresentou o declínio nos níveis de “T” e na contagem de espermatozoides como uma crise de saúde pública e aconselhou os homens a usar terapia de luz vermelha nos testículos para estimular a produção hormonal.

Meredith Jones, professora de estudos de gênero e culturais na Universidade Brunel, vê o fenômeno como parte de uma “reação contra a fluidez de gênero”, “o movimento trans [e] a homossexualidade”.

Ela argumentou que era comparável à reação que se instalou após a Segunda Guerra Mundial, quando as mulheres da geração “Rosie, a Rebitadeira“, que haviam entrado em massa na força de trabalho e “tomado os empregos dos homens”, foram empurradas de volta para os papéis domésticos tradicionais.

A hipermasculinização da direita americana ocorre em um momento em que a dominância dos homens na sociedade está sendo corroída, dizem especialistas, embora argumentem que a testosterona dificilmente restaurará seu antigo status.

“Não há dúvida de que há uma incerteza crescente entre os homens sobre seu lugar no mundo”, disse Kathleen Gerson, professora de sociologia na Universidade de Nova York. “Mas a resposta não é voltar a uma época em que a força física era o fator determinante de quem fazia o quê. A resposta não é testosterona.”

O secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr. certamente discordaria. Kennedy, que se filmou malhando com o músico Kid Rock e entrando em um banho gelado apenas de jeans, admitiu usar TRT.

Ele também fez questão de elogiar os altos níveis de “T” de Trump. “Ele tem a constituição de uma divindade”, disse em um podcast em janeiro apresentado por Katie Miller, esposa do vice-chefe de gabinete da Casa Branca, Stephen Miller.

Mehmet Oz, um alto funcionário de saúde de Trump, havia recentemente examinado os registros de saúde do presidente, disse Kennedy, e teria descoberto que ele tinha “o nível de testosterona mais alto que já viu em um indivíduo com mais de 70 anos”.

A fixação do movimento Maga em testosterona ocorre em um momento em que a atratividade física é cada vez mais vista como moeda social —uma tendência reforçada pelo movimento “looksmaxxing” que floresceu durante o segundo mandato de Trump.

Um dos influenciadores mais proeminentes do movimento, o streamer de 20 anos Braden Peters, conhecido como “Clavicular”, admitiu ter experimentado testosterona ainda adolescente e usado martelos para remodelar suas maçãs do rosto.

“A aparência se tornou um valor dominante, de modo que quem somos é como parecemos”, disse Heather Widdows, professora de filosofia na Universidade de Warwick e autora de “Perfect Me: Beauty as an Ethical Ideal” (Eu perfeito: a beleza como um ideal ético).

“Estamos literalmente nos escrevendo em nossos corpos, passando do corte do vestido para o corte do seio”, acrescentou.

Funcionários de Trump insistiram que o plano de Hegseth é totalmente sobre saúde, não aparência.

Brian Christine, secretário-adjunto de Saúde, disse que homens com hipogonadismo —o termo clínico para deficiência de testosterona— tinham fertilidade reduzida e taxas mais altas de obesidade, diabetes e doenças cardíacas.

“Eles têm um risco de morte de uma a duas vezes maior, maior risco de mortalidade por todas as causas”, disse ele. “Isso é sobre otimizar nossos combatentes para fazer seu trabalho de nos proteger e realizar suas missões críticas.”

Mas outros descrevem o discurso sobre testosterona como performático, semelhante à intolerância declarada de Hegseth a barbas e generais acima do peso. Em um discurso para comandantes militares em Quantico, na Virgínia, em setembro, ele declarou que não haveria “mais barbudos”, acrescentando que era “completamente inaceitável ver generais e almirantes gordos“.

Becca Balint, congressista democrata, até vê paralelos entre a estética musculosa de Hegseth e o trabalho de “Tom of Finland”, o artista gay famoso por seus marinheiros e lenhadores hipermasculinos.

Ela observou o contraste entre a relação “intensa”, às vezes até “homoerótica”, que alguns membros do governo Trump parecem ter com a masculinidade, e sua postura “não apenas homofóbica, mas de incitação ao ódio, de disseminação de medo sobre a comunidade LGBTQ”.

Williams, da UCLA, faz uma conexão direta entre o anúncio sobre testosterona e as políticas do governo que visam pessoas que não se conformam com padrões de gênero. Sob Trump, o governo dos EUA tentou restringir cuidados de afirmação de gênero para menores, excluir meninas trans de competir em esportes escolares femininos e proibir pessoas transgênero de servir nas Forças Armadas.

“Desde o início, Hegseth tem se dedicado a expurgar das Forças Armadas qualquer pessoa que ele sinta não ter direito de nascença aos seus privilégios”, disse ela. “É uma forma de colocar os homens de volta no centro, no que diz respeito às Forças Armadas.”

O secretário de Defesa revelou seu plano de triagem horas depois de bloquear a promoção de sete oficiais da Marinha —cinco dos quais eram mulheres ou pessoas não brancas— a contra-almirante de duas estrelas. Um porta-voz do Pentágono se recusou a comentar.

Mark Hertling, general aposentado, disse que depois que o vídeo de Hegseth foi postado no X, ele recebeu uma mensagem de uma coronel lamentando o fato de que mulheres estavam sendo retiradas das listas de promoção enquanto “estamos falando em dar mais recursos aos soldados homens”.

“Ela disse: ‘Eu gostaria que parássemos de nos preocupar com T baixo e começássemos a nos preocupar um pouco mais com QI baixo'”, ele contou ao canal MS NOW.

Michael Kimmel, autor de “Manhood in America” (Masculinidade na América), disse que Hegseth, que uma vez se manifestou contra mulheres servindo em combate, tem consistentemente buscado políticas destinadas a reforçar os papéis de gênero tradicionais nas Forças Armadas.

“O governo Trump, do qual Pete Hegseth é um exemplo primordial, são verdadeiros crentes na política de gênero existente por volta de 1950”, disse ele. “Isso significa homens provedores saindo para lutar contra dragões na selva corporativa e mulheres ‘tradwife’ [tradicionais] ficando em casa, tendo bebês e cuidando da casa.”

O problema, acrescentou, era que a visão tradicional dos papéis de gênero estava fora de sincronia com um mundo em que ambos os pais frequentemente precisavam trabalhar. “A participação das mulheres na força de trabalho não é opcional”, disse Kimmel.



Fonte CNN BRASIL

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