Grupos de iranianos no exterior contrários ao regime teocrático em Teerã dizem que pelo menos 1.500 detentos na maior prisão do país, o presídio de Ghezel Hesar, estão em greve de fome há 17 dias para protestar contra a aplicação ampla da pena de morte no Irã.
Segundo a HRAI (Ativistas de Direitos Humanos no Irã, em português), organização sediada nos Estados Unidos, a greve de fome começou no dia 13 de julho, quando seis detentos condenados à morte foram transferidos para celas solitárias em preparação para serem executados —no Irã, o método mais comum é a forca.
De acordo com a HRAI, os prisioneiros, condenados principalmente por tráfico de drogas, protestam contra a aplicação da pena de morte em seus casos, argumentando que não cometeram crimes contra a vida. Eles se recusam a receber as refeições dos guardas e, em pelo menos um caso, segundo o jornal britânico The Guardian, um detento costurou a boca de outro com linha e agulha.
Os grupos opositores dizem que todos os 1.500 homens em greve de fome estão no corredor da morte, aguardando execução, mas que a retirada violenta dos seis prisioneiros no dia 13 desencadeou o protesto.
Em um vídeo supostamente gravado dentro de Ghezel Hesar e publicado pela HRAI, os detentos são vistos sentados no chão em frente a suas celas segurando folhas de papel com os dizeres “não à execução” e “sejam nossa voz”.
O Guardian publicou em reportagem ter tido acesso a um vídeo mostrando um prisioneiro pedindo aos guardas de Ghezel Hesar atendimento médico para os detentos em greve de fome, que já começam a apresentar complicações de saúde.
A HRAI afirma que familiares dos condenados à morte realizaram alguns protestos em frente ao presídio, mas eles teriam sido violentamente reprimidos. De acordo com o NCRI (Conselho Nacional de Resistência do Irã), grupo opositor que opera no Reino Unido, “as execuções públicas são usadas para intimidar a sociedade civil e reprimir dissidentes”.
Os presos também protestam contra a execução de pessoas condenadas por crimes relacionados aos protestos em massa que ocorreram em janeiro no país. As manifestações contra o regime deixaram pelo menos 5.000 mortos. Nesta terça-feira (28), Amirhossein Hosseinabadi e Abolfazl Badjani, acusados de matar quatro policiais em uma manifestação, foram enforcados em praça pública, segundo agências estatais iranianas.
Os homens foram executados na cidade de Isfahan, onde a morte dos policiais aconteceu. No total, 12 pessoas, incluindo Hosseinabadi e Badjani, foram condenadas e enforcadas pelo assassinato dos agentes.
O Escritório de Direitos Humanos das Nações Unidas disse que os 12 foram julgados de forma conjunta, em uma única sessão a portas fechadas, sem que o envolvimento de cada um dos réus tenha sido apropriadamente detalhado pela acusação. Segundo a ONU, o procedimento jurídico violou o direito dos acusados ao devido processo legal.
De acordo com a ONG Human Rights Watch, pelo menos 50 pessoas foram executadas por “acusações vagas de crimes contra a segurança nacional” desde o início da guerra entre o Irã, Israel e os EUA. O ritmo dos enforcamentos aumentou ao longo do conflito, e o regime voltou a realizar alguns deles em praça pública, algo que não acontecia desde 2023, segundo a Anistia Internacional.
No total, a HRAI diz ter documentado 851 aplicações da pena de morte no Irã de janeiro a julho de 2026. A maioria dos executados eram condenados por tráfico de drogas —em 2025, 795 pessoas foram executadas somente por esse crime, de acordo com a organização.
O NCRI diz que a greve de fome que começou em Ghezel Hesar atinge mais de 59 prisões, embora a informação não possa ser verificada de maneira independente. Grupos como a Anistia Internacional já denunciaram casos de greve de fome coletiva em prisões iranianas no passado.
Em outubro de 2025, um protesto parecido na mesma cadeia levou a uma visita oficial das autoridades do regime teocrático. A situação humanitária dos detentos, entretanto, não melhorou.




