Eclipsado pela atenção global no Oriente Médio e pelos protestos estudantis em casa, o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, acelerou um projeto que visa criar uma aliança informal de países cercando seu principal rival geopolítico, a China.
Em maio, recepcionou em Nova Déli o líder do Vietnã, To Lam. Em junho, foi às Ilhas Seychelles. Em julho, Modi visitou Indonésia, Austrália e Nova Zelândia. Logo depois, recebeu em Nova Déli a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi.
Em todos os encontros houve a assinatura ou reforço de acordos de cooperação econômica e de defesa. No caso vietnamita e indonésio, foram revelados negócios inéditos para a venda do míssil de cruzeiro supersônico russo-indiano BrahMos.
Em comum, todos os envolvidos são rivais do colosso chinês e têm geografia peculiar. Basta observar um mapa e ver que as principais rotas marítimas da China são suscetíveis a ações dessas nações.
“A Índia não tem o poder bruto para se contrapor à China por meios militares ou econômicos. Como ela é relutante em aderir a alianças formais, a única alternativa é criar uma coalizão mais frouxa que possa envergonhar, constranger ou colocar barreiras quando a China for mais agressiva”, disse à Folha Kanti Bajpai.
Professor de relações internacionais da Universidade Ashoka (Índia), Bajpai foi um dos primeiros pesquisadores a mapear as pretensões de Modi, em 2017, quando o premiê nacionalista estava no poder havia três anos.
Foi também em 2017 que Modi participou do relançamento do Quad, o grupo de segurança conjunta com Estados Unidos, Japão e Austrália, que novamente se autoexplica observando a posição dos países em relação a Pequim.
Mas Bajpai não extrapola quando o tema é pretensões militares, ainda que as Forças Armadas indianas sejam vastas e equipadas com estimadas 190 ogivas nucleares, ante 600 dos rivais chineses.
Segundo ele, o país não tem capacidade de promover um bloqueio marítimo sozinho no oceano Índico, e o temor de uma escalada nos confrontos fronteiriços de 2020 e 2022 com os chineses ainda ressoa em Nova Déli. “Modi é muito cauteloso agora com Xi [Jinping, o líder da China]”, diz.
Em 2024, os rivais se encontraram pela primeira vez em cinco anos e selaram uma discreta reaproximação, reafirmada em reunião no ano passado. “É um balanceamento suave”, afirma o professor.
O Brics, grupo do qual ambos os países são fundadores ao lado de Brasil e Rússia, serve à estratégia de manter canais abertos, ainda que com a desconfiança vigente.
O professor lembra que um choque direto seria pior para a Índia, que no ano passado viu a China voltar ao posto de maior parceiro comercial com enorme superávit: dos US$ 151 bilhões da corrente comercial entre os países, US$ 112 bilhões foram em favor de Pequim.
“A China é o único país que pode prover virtualmente tudo o que a Índia quer para ir além da média de 6% de crescimento do PIB nos últimos 30 anos. Preço acessível, boa qualidade e escala”, pondera. Economicamente, a China é quase cinco vezes maior que a Índia, e as exportações para o vizinho representam apenas 3,4% do total vendido pelo país.
A alta volatilidade de Donald Trump interrompeu um processo de corte iniciado pelo presidente americano anterior, Joe Biden. Os dois líderes chegaram a bater boca acerca do papel da Casa Branca para evitar um confronto mais sério da Índia com o Paquistão no ano passado.
Ainda assim, diz crer Bajpai, Washington não conta tanto com os indianos, que não veem como páreo para Pequim, até pela associação dos chineses com o arquirrival do país, o também nuclear Paquistão.
Com efeito, Nova Déli sempre manteve um leque variado de parcerias —sua Força Aérea opera aparelhos domésticos, russos, franceses, americanos, brasileiros e israelenses.
Pensa algo diferente outro analista que se debruçou sobre o tema recentemente, George Friedman, um dos papas da geopolítica americana e dono da consultoria Geopolitical Futures. “Modi parece ter alcançado um feito histórico”, escreve.
“O giro asiático dele pode ser visto como o início de uma mudança fundamental no sistema global”, sustenta.
Para ele, a questão não é a Índia isoladamente, mas o arco de alianças —particularmente com a Indonésia, que controla com a Malásia o principal gargalo marítimo do Índico, o estreito de Málaca, por onde passa 80% da energia consumida pelos chineses e boa parte de sua exportação.
Ele e Bajpai concordam que a intensificação de laços militares é um fator novo. Até então, além de ser um grande cliente de armas russas, Nova Déli não tinha se projetado tanto na região, com exceção de uma venda do mesmo sistema BrahMos para a também sinofóbica Filipinas.
Como diz Friedman, “é possível que nada disso ocorra, é claro”. Mas além do Quad, agora três importantes países do Indo-Pacífico compram mísseis indianos. Os vietnamitas também encomendaram navios, e vários exercícios multinacionais ocorrem nas águas da região.
De seu lado, Xi promoveu a militarização do mar do Sul da China. Ele está montando uma Marinha para projetar poder além de suas águas costeiras, antevendo cenários de confrontação justamente no seu ponto mais vulnerável.



