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No fim de julho, cerca de 72 mil pessoas atravessaram para Ceuta em poucos dias. É quase a população inteira do exclave espanhol na costa de Marrocos. Mais de 70 morreram no caminho, afogadas ou esmagadas na corrida pelo quebra-mar de Tarajal, segundo as autoridades espanholas.
Uma semana depois, quase todas estavam de volta a Marrocos. Algumas porque foram mandadas de volta, outras por decisão própria. A Espanha instalou uma barreira flutuante no mar e o episódio, pelo menos oficialmente, parecia terminado.
Só que ficou a fotografia.
A imagem mostrava uma multidão dentro d’água, diante de Ceuta. Era difícil não parar para olhar, e foi exatamente o que aconteceu. A foto começou a circular e, em pouco tempo, já estava servindo de munição para políticos populistas e de extrema direita em vários países.
Donald Trump foi um dos primeiros. Chamou o que havia acontecido de “catástrofe” e disse que algo parecido poderia ocorrer nos Estados Unidos se os republicanos perdessem as eleições de novembro. Falou em “lei fraca” e “má gestão”.
Não é difícil entender por que o assunto lhe interessou. O presidente americano está com aprovação na casa dos 30% e tem uma eleição de meio de mandato pela frente. Imigração é um dos temas que ele sabe explorar melhor. E há também uma questão pessoal. Pedro Sánchez, o primeiro-ministro espanhol, está entre os líderes europeus que mais divergem dele em assuntos como gastos militares, Israel e regulação da tecnologia.
Na Europa, aconteceu algo parecido. Cada um pegou a fotografia e deu a ela o significado que lhe convinha.
Giorgia Meloni, primeira-ministra da Itália, foi das mais duras. Anunciou uma checagem de passageiros não europeus vindos da Espanha e chegou a pedir a suspensão do país do espaço Schengen, a livre circulação que é um dos alicerces da União Europeia. Detalhe: nenhuma das pessoas que entraram em Ceuta tinha sequer chegado ao continente europeu.
Marine Le Pen, líder do partido Reunião Nacional, acusou o governo espanhol de estimular a migração e disse que, se chegar ao Eliseu em 2027, pretende acabar com a livre circulação europeia para quem não for cidadão da União Europeia.
Nigel Farage, do Reform UK, avisou que os marroquinos estavam indo para o Reino Unido.
Alice Weidel, da Alternativa para a Alemanha (AfD), escreveu no X que Ceuta havia sido “destruída da noite para o dia”.
Do outro lado do Atlântico, Javier Milei não ficou devendo. O presidente argentino publicou imagens que supostamente mostravam moradores de Ceuta prendendo migrantes por conta própria e os entregando à polícia, com um recado: “Quando o povo acorda, o fim do socialismo se aproxima. Aguenta firme, Espanha”. Na televisão, acusou Sánchez de usar os imigrantes para dar-lhes nacionalidade e garantir votos, sem apresentar qualquer prova.
Houve, na verdade, duas mentiras. A primeira colocou as pessoas na água. Circularam na internet campanhas que apresentavam uma decisão do Supremo Tribunal espanhol, tomada no fim de junho, sobre a devolução de migrantes, como se ela tivesse aberto a fronteira. Não tinha. Mas bastou o boato para pôr dezenas de milhares de pessoas em movimento.
A segunda mentira veio depois, e foi de outra natureza. Os fatos já eram conhecidos, a multidão, a foto, o retorno em massa a Marrocos, e ainda assim políticos eleitos passaram a contar uma história falsa sobre o que aquilo significava. A “invasão”, a “catástrofe”, o país “destruído da noite para o dia”, os moradores fazendo justiça com as próprias mãos. A primeira mentira moveu migrantes. A segunda, agora com o peso de presidentes, primeiros-ministros e líderes partidários, moveu o debate político de meio mundo.
Sánchez reagiu dizendo que as críticas eram fruto de preconceito, notícias falsas, ignorância ou cálculo político. Não estava falando apenas de Trump.
Quando pensamos em desinformação na Europa, o hábito é olhar para fora. A Rússia. As fábricas de trolls. A propaganda estrangeira. Algum inimigo trabalhando para desestabilizar as democracias europeias. Desta vez, não: a história nasceu, em boa parte, dentro da própria Europa, e foi amplificada por gente eleita para governá-la, e por aliados que enxergaram ali uma bandeira útil.
Guerra de verdade
Na universidade, estudei um livro que me voltou à cabeça agora: “The First Casualty”, de Phillip Knightley.
O livro começa com uma frase atribuída ao senador americano Hiram Johnson, em 1917: “a primeira vítima da guerra é a verdade”.
Knightley conta, da Guerra da Crimeia à Guerra do Iraque, como governos, militares e jornalistas foram, em diferentes momentos, construindo juntos a narrativa dos conflitos. O jornalista deveria estar ali para verificar o que estava sendo dito. Muitas vezes, porém, acabava reproduzindo o comunicado oficial, adotando a linguagem dos militares e aceitando a divisão entre heróis e vilões que lhe era entregue pronta.
Knightley falava de guerras. Guerras mesmo. Tanques, soldados, trincheiras. O mecanismo, no entanto, não desapareceu. Mudaram as ferramentas. Hoje, além do porta-voz oficial, há redes sociais, influenciadores, propaganda de Estado e vídeos produzidos por inteligência artificial. E a distância entre o que aconteceu e o que chega ao público ficou muito maior.
Ceuta é um episódio pequeno diante de tudo isso. Mas talvez seja justamente por ser pequeno que vale a pena olhar para ele. Ninguém precisou inventar uma fotografia. Ninguém precisou inventar uma multidão. Ninguém precisou inventar a crise migratória. Bastou contar uma história diferente sobre o que aquela imagem significava. E isso é mais difícil de combater do que uma mentira inteira, inventada do zero.
A Europa vai entrar em novos ciclos eleitorais importantes. A França terá uma eleição presidencial em 2027, e Espanha e Itália também estarão em disputa no mesmo ano. Virão muitas outras fotografias, muitos outros vídeos e, com certeza, muitos outros boatos. O trabalho de quem faz jornalismo, nesse ambiente, fica bem mais difícil e mais importante.
Não porque o jornalista tenha sempre a resposta certa, mas porque alguém precisa parar diante da fotografia e perguntar o que realmente aconteceu ali.
Duas imagens da guerra ao lado
Enquanto a fotografia de Ceuta circulava pela Europa, duas outras imagens da guerra entre Rússia e Ucrânia chamaram a atenção nesta semana. Vieram de lados opostos da fronteira, mas mostram a mesma coisa: a guerra chegando cada vez mais perto das pessoas comuns.
Na segunda-feira, um drone caiu sobre uma praia lotada em Gelendjik, cidade turística russa no mar Negro, em pleno verão. Sete pessoas morreram, entre elas crianças, e quase 60 ficaram feridas. Moscou acusou a Ucrânia de atacar civis de propósito. Kiev não confirmou nem negou o disparo, mas disse que o aparelho foi derrubado pela própria defesa antiaérea russa. Uma análise do vídeo pela CNN dá algum peso a essa versão: segundos antes da explosão, ouvem-se disparos, e o drone muda bruscamente de direção antes de cair na areia. Para quem estava lá, a distinção pouco importa.
No dia seguinte, veio outro vídeo, de Kherson, na Ucrânia. Um drone russo persegue Iurii, vendedor de verduras de 52 anos, ao redor da própria van, enquanto ele tenta mostrar à câmera que carrega apenas legumes. O drone avança mesmo assim e explode ao seu lado. Ele sobreviveu, ferido por estilhaços. Volodimir Zelenski divulgou as imagens e chamou aquilo de “safári” russo contra civis.
Na Ucrânia, a ONU contabilizou quase 1.400 civis mortos no primeiro semestre de 2026, um terço a mais que no ano anterior. Na Rússia foram cerca de 250, muito menos, mas um número que cresce rápido, mais que o dobro de um ano antes, à medida que a Ucrânia leva a guerra para dentro do território inimigo. Ainda assim, as imagens de Gelendjik e Kherson deixam algo difícil de ignorar: o conflito se aproxima dos civis dos dois lados. E, quando isso acontece, fica cada vez mais difícil saber até onde a escalada vai.
Frase da Semana
Eu mostrava: olha, são verduras. Mas ele veio direto para cima de mim
A vez da França
Aqui na França, faltando menos de um ano para a eleição presidencial de 2027, candidatos e possíveis candidatos ao Eliseu entraram na mira de operações russas de desinformação.
O primeiro foi Édouard Philippe, ex-primeiro-ministro de Emmanuel Macron e hoje líder do Horizons, de centro-direita. No fim de julho, a rede pró-russa Storm-1516 passou a espalhar informações falsas sobre a saúde dele, na primeira operação do tipo contra um nome cotado para a Presidência francesa. Poucos dias depois veio Raphaël Glucksmann, eurodeputado de centro-esquerda e um dos defensores mais firmes da Ucrânia no Parlamento Europeu. Desta vez foram mais longe: criaram um site falso, que imitava a identidade visual do Blast, um órgão de imprensa francês, e o encheram de documentos forjados e imagens feitas com inteligência artificial. Nesta quarta-feira, a comitiva de Gabriel Attal, ex-premiê e principal herdeiro político de Macron no centro, informou à AFP que ele também fora alvo, a oito meses do primeiro turno.
Os três casos foram atribuídos ao Storm-1516, grupo ligado à inteligência militar russa. A Viginum, agência francesa que acompanha a interferência digital estrangeira, já identificou 205 operações do gênero desde agosto de 2023. Glucksmann reagiu dizendo que a França não deixará “potências estrangeiras hostis” roubarem uma eleição decisiva para o país, e prevê uma campanha em 2027 marcada por “interferências massivas”. O primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, já havia falado em risco “muito agudo”.
Há um detalhe curioso. Philippe, Glucksmann e Attal ocupam lugares diferentes no espectro político francês. O que os aproxima não é a política doméstica, é a Ucrânia: os três defendem Kiev e, por isso, incomodam Moscou.
No Radar
O que monitorar até a próxima quarta-feira (12)
- Ucrânia — Depois do encontro Trump-Zelenski em julho, a negociação esfriou. Putin ampliou as exigências territoriais e intensificou os ataques, como mostraram os drones desta semana. O impasse deve atravessar o verão, com a Europa cada vez mais sozinha no apoio a Kiev.
- Oriente Médio — Trump anunciou um acordo de desarmamento com o Hamas e negocia com o Irã a reabertura do estreito de Hormuz, antes da questão nuclear. Netanyahu resiste à pressão americana por um cessar-fogo pleno em Gaza, de olho na eleição israelense do fim de outubro. Situação fluida, muda a cada dia.
- Iene e o Fed — O Tesouro dos EUA interveio na semana passada para segurar o iene, em mínimas de quatro décadas, na primeira ação conjunta com Tóquio em mais de dez anos. O mercado agora vigia o Federal Reserve com lupa.
Fora da Pauta
Florian Krewer: woven thin — Musée d’Art Moderne de Paris
Até 4 de janeiro, o MAM abriga a primeira mostra individual na França de Florian Krewer, pintor alemão de 39 anos formado em Düsseldorf sob Peter Doig e hoje radicado no Bronx. São 16 telas monumentais, algumas inéditas, penduradas dentro da coleção permanente, em diálogo com os mestres do século 20. A pintura dele é autobiográfica e crua, povoada por dançarinos, animais e figuras solitárias que flutuam entre a violência e a intimidade. Entrada gratuita, de terça a domingo, das 10h às 18h (quinta até 21h30).




