Faltam cerca de US$ 4 trilhões por ano para financiar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável nos países em desenvolvimento.
O cálculo da ONU abre o estudo que Isabel Rocha de Siqueira, Enzo Cosenza e Luis Ehl, do Brics Policy Center da PUC-Rio, publicaram em julho sobre a crise do financiamento ao desenvolvimento. Países que se orgulham de serem confiáveis e previsíveis têm faltado com a palavra.
A Agenda de Ação de Adis Abeba reafirmou, em 2015, o compromisso dos países chamados desenvolvidos de destinar 0,7% de sua renda nacional bruta à assistência oficial ao desenvolvimento. A mesma meta entrou explicitamente no Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 17. Em 2025, porém, a contribuição efetiva correspondeu a apenas 0,26% da renda nacional bruta desses países.
Há uma razão histórica para os acordos. Parte da riqueza acumulada pelos países desenvolvidos foi produzida por séculos de colonialismo, escravização, exploração de recursos em sociedades que hoje enfrentam pobreza, endividamento e eventos climáticos extremos com muito menos condições.
Em 2025, a assistência oficial ao desenvolvimento feita pelos países ricos que integram o Comitê de Assistência ao Desenvolvimento da OCDE caiu 23,1%, a maior retração anual já registrada. Foram US$ 174,3 bilhões, contra US$ 215,1 bilhões no ano anterior.
Os Estados Unidos cortaram 56,9% de sua contribuição e responderam, sozinhos, por três quartos da queda global. EUA, Alemanha, Reino Unido, Japão e França concentraram 95,7% da retração registrada em 2025.
A redução dos recursos tem uma geografia definida. Em 2025, a assistência bilateral à África subsaariana caiu 26,3%, e a ajuda humanitária, 35,8%. São recursos que financiam vacinação, alimentação, saneamento, educação, proteção de refugiados e adaptação climática.
Quando diminuem, populações já vulneráveis ficam ainda mais expostas a condições que costumam intensificar deslocamentos populacionais, justamente quando EUA e Europa estão tão concentrados em endurecer políticas migratórias.
Michel Foucault descreveu a forma de poder exercida não apenas pelo direito de matar, mas pela capacidade de administrar a vida, fazer viver e deixar morrer. Sueli Carneiro avançou nessa formulação ao investigar o dispositivo de racialidade. A administração da vida nunca acontece de forma neutra. Proteção, cuidado e exposição à morte são distribuídos pelo mundo e dentro dos países de maneira racialmente desigual.
O estudo da PUC-Rio alerta para o fato de que a escassez de recursos públicos tem aberto espaço crescente para interesses privados no financiamento do desenvolvimento. Capital privado pode financiar energia, infraestrutura ou tecnologia quando for lucrativo. Mas enfrentar a fome não costuma ser rentável.
Em 2015, os governos aprovaram a Agenda 2030 e prometeram erradicar a pobreza extrema e a fome, ampliar a saúde e a educação, reduzir as desigualdades e enfrentar a crise climática. Naquele mesmo acordo, reafirmaram compromissos para financiar esses objetivos. Dez anos depois, faltam US$ 4 trilhões por ano para cumprir a promessa.




