Abelardo de la Espriella lida com as consequências do pior terremoto na Colômbia em mais de 20 anos menos de 72 horas após tomar posse —o que deve ser um teste de fogo para o primeiro presidente do país sem experiência prévia em cargos públicos.
Segundo o Serviço Geológico da Colômbia, o tremor desta segunda-feira (10), que matou ao menos 111 pessoas, foi o pior do século 21. O número de vítimas do terremoto, sentido em 11 dos 32 departamentos do país, deve crescer nos próximos dias, considerando o nível de danos em construções.
Nas horas seguintes ao tremor, a Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) suspendeu uma partida que ocorreria em Bogotá, o Senado adiou a sessão agendada para esta terça (11) e capitais abriram centros de ajuda para os atingidos.
Além disso, León Fabio Marín, prefeito do município onde foi o epicentro do sismo, San José del Palmar, disse ter um orçamento de apenas US$ 32 milhões da Unidade Nacional de Gestão de Riscos de Desastres. “Somos um município extremamente pobre, com muito poucos recursos”, disse o político que gere a cidade de quase 6.000 habitantes.
Trata-se de um desastre que vai exigir pragmatismo de Espriella, que venceu as eleições de junho prometendo uma nova era para a “Pátria Milagre”, como batizou seu programa de governo.
Quando ocorreu o terremoto, o ultradireitista estava em Medellín, uma das cidades incluídas em um roteiro de visitas após a cerimônia de posse, em Cali, na última sexta-feira (7). Foi a primeira inauguração de um governo realizada fora de Bogotá —uma exigência do novo presidente, um crítico da centralização das instituições colombianas.
“Vou defender a descentralização, por isso vou governar a partir das regiões, com vocês. Além disso, um dos nossos primeiros atos legislativos será reconhecer a cidade de Barranquilla como capital alternativa”, afirmou Espriella no final de junho em um evento no departamento de Córdoba, também na costa caribenha.
Para além de uma tentativa de mudar o funcionamento do Estado, um antigo dilema na Colômbia, a ação de Espriella é também um aceno à região do Caribe, na qual construiu a sua carreira como advogado e, consequentemente, sua identidade política, embora tenha nascido em Bogotá.
A proposta, no entanto, enfrenta dificuldades logísticas, e a volta do presidente para a capital para coordenar a resposta ao terremoto demonstra isso. Líderes regionais se mostraram entusiasmados com a ideia de montarem centros de poder para Espriella: o prefeito de Cali, Alejandro Eder, por exemplo, ofereceu o prédio do Centro Cultural da cidade para que o novo presidente despachasse.
“Celebramos o anúncio do presidente Espriella de que Cali será uma das sedes de seu governo. Esta é uma mensagem muito importante, não só para Cali e o Sudoeste, mas para todas as regiões da Colômbia, de que o Governo Nacional não vai mais virar as costas para as nossas necessidades”, afirmou o político na ocasião, no final de junho, gerando críticas pelo possível novo uso do espaço.
Esteban Oliveros, deputado do departamento do Valle del Cauca, onde fica a Colômbia, começou a coletar assinaturas para que o centro não se transformasse em um gabinete presidencial. “Convido vocês a assinarem minha petição. Vamos deixar claro para Alejandro Eder e Abelardo de la Espriella que eles podem operar em Cali, mas em um espaço que não desrespeite nossa cultura e história”, afirmou o político do Partido Verde, na mesma época.
Ainda é cedo, porém, para dizer se o terremoto será um choque de realidade para os planos de Espriella, que sofreu sua primeira derrota no Congresso antes mesmo de tomar posse.
No final de julho, legisladores do Pacto Histórico e do Centro Democrático, dos ex-presidentes Gustavo Petro e Álvaro Uribe, respectivamente, uniram-se para derrotar o candidato de Espriella à Presidência do Senado —algo inédito nos últimos anos, já que a Casa costuma eleger um aliado do novo presidente no começo de seu mandato.
Nesta segunda, de Bogotá, o ultradireitista declarou desastre nacional após o sismo, o que permite a transferência de verba para emergências, e anunciou um plano de ação. Ele está a caminho de Quibdó, capital do departamento de Chocó e uma das cidades mais afetadas pelo terremoto.




