Na Argentina, vai ganhando a raiva, o descontentamento e o velho jingle “que se vayan todos” (vão todos embora) que marcou as dramáticas manifestações que deram um fim para o governo de Fernando De la Rúa, em 2001, antes do tempo.
Desta vez, quem personificou o “hartazgo”, ou cansaço dos argentinos foi o ultradireitista liberal Javier Milei, 52, que liderava a apuração parcial com 32,1% dos votos no momento em que 66,3% das urnas haviam sido apuradas, por volta das 23h deste domingo (13).
Milei provou que as denúncias de venda de candidaturas políticas que surgiram contra ele e o desgaste causado pelo crescimento das intenções de voto do peronista Sergio Massa e da conservadora linha-dura Patricia Bullrich nas últimas semanas não o abateram. O resultado preliminar das Paso (primárias, abertas, simultâneas e obrigatórias) o mostra revigorado.
A expressividade do voto em Milei, baseado sobretudo na confiança depositada nele por jovens homens e pobres entre 19 e 30 anos, obrigará desde já os demais candidatos a repensarem suas estratégias.
O próprio ultraliberal terá de refletir sobre quais delírios poderá manter entre suas promessas de campanha, e quais será levado a calibrar para ter os apoios necessários. Entre eles, estão: tirar a Argentina do Mercosul, acabar com o Banco Central, dolarizar o país, aprovar a venda de órgãos e implementar o “plano motoserra”, que diminuiria em mais da metade o gabinete de ministros e vários empregos na administração do Estado.
Vale sempre ressaltar que as Paso não são a eleição para valer. Na prática, elas existem para eliminar candidatos menos votados de cada coalizão e chegar a um número mais enxuto para o primeiro turno da disputa presidencial, que nestas eleições ocorre em 22 de outubro.
Ou seja, daqui até lá, teremos outro tabuleiro político na mesa e muitas negociações de apoios com que lidar. Também será necessário avaliar o rumo que devem tomar os eleitores dos candidatos que ficaram de fora.
Num país em que as pesquisas eleitorais vêm falhando, porém, as Paso ganham nova dimensão, e seu resultado provoca novos desdobramentos políticos.
No espaço da direita tradicional, o Juntos por el Cambio obteve até agora 27,7% dos votos e confirmou a candidatura à Presidência de Patricia Bullrich. Com seu carisma linha-dura, a ex-ministra da Segurança é, de todos os candidatos, a que mais pode tirar votos de Milei, pois compartilha com ele a pauta do reforço na luta contra a criminalidade.
Ela terá a tarefa de atrair os votos do perdedor em sua chapa, Horacio Larreta, cujo estilo “low profile”, técnico e cauteloso, não entusiasmou. Nessas alianças, e mesmo numa suposta aliança do Juntos por el Cambio com Milei, será chave o papel do ex-presidente Mauricio Macri, padrinho político dos dois candidatos que vem conversando intensamente com o autointitulado “anarcocapitalista” nas últimas semanas.
Já no espaço do peronismo/kirchnerismo, que por enquanto está em terceiro lugar no cômputo geral com 25,8% dos votos, saiu vencedor Sergio Massa, que desbancou seu rival interno, Juan Grabois. Enquanto Massa é o atual ministro da economia e prevê ajustes caso assuma como presidente, Grabois está mais à esquerda, e carrega com ele os peronistas vinculados a movimentos sociais e a órgãos relacionados à economia popular, além de setores vinculados à Igreja e que atuam em favelas.
Embora daqui até outubro exista muito tempo, na Argentina os resultados de votações como esta começam a impactar já no dia seguinte. Esta segunda-feira (14) deverá testar os ânimos do mercado, o que pode ter repercussões na cotação do dólar, nas bolsas.
A ascensão de Milei hoje, mesmo que não chegue a ser eleito em outubro, aumentará sem dúvida a presença do A Liberdade Avança no Congresso. Para um país que durante muitas décadas teve somente duas grandes forças políticas, peronistas e antiperonistas, a novidade agora é lidar com uma terceira força com ideias bem mais radicais.
As eleições deste ano marcam os 40 anos do retorno à democracia na Argentina. Caberá ao presidente que tomar posse no dia 10 de dezembro não atentar contra essa conquista da população. Quaisquer flertes com o autoritarismo representariam um retrocesso para o país.




