Na economia, assim como na vida, é muito importante aprender com seus erros. O processo de aprendizagem começa quando você diz as palavras mágicas “eu errei”, o que o deixa livre para perguntar por que você errou e fazer melhor na próxima vez.
Aqueles de nós que falharam em prever o grande aumento da inflação em 2021-2022 estão, acho justo dizer, bem adiantados nesse processo.
Mas não está claro para mim que os economistas que previram que manter a inflação sob controle –ela caiu muito, embora não totalmente– exigiria anos de desemprego muito alto estejam fazendo um cálculo semelhante. Deveriam. Especialmente, eles devem se perguntar se o pessimismo inflacionário foi em parte causado por uma forma de viés que teve efeitos negativos em muitas políticas econômicas –não o viés partidário, mas o desejo de parecer sérios, pedindo opções difíceis e sacrifícios.
Antes de chegar a isso, porém, deixe-me falar sobre o que deu errado com tantas previsões econômicas recentes.
Eu estive examinando o que se poderiam chamar de previsões convencionais sobre inflação e desemprego feitas no final do ano passado –projeções econômicas do Fed (Federal Reserve, o Banco Central dos EUA) e de analistas profissionais pesquisados pelo Fed da Filadélfia. Talvez de modo surpreendente, todas previram mais ou menos corretamente o declínio da inflação que estamos realmente vendo.
A pesquisa de analistas previu uma inflação ao consumidor (excluindo preços voláteis de alimentos e energia) de 3,5% para todo o ano de 2023; dados os aumentos reais de preços até agora este ano, isso exigiria que a inflação para o resto do ano ficasse em 2,7%, o que parece bastante razoável, diante dos dados recentes. O Fed previu que o deflator das despesas básicas de consumo pessoal, uma medida semelhante, aumentaria 3,5% ao longo do ano; isso também chegará perto se a inflação para o resto do ano for de 3% ou menos, o que novamente parece razoável.
Ambas as previsões, no entanto, supunham que a desinflação exigiria um aumento substancial do desemprego. Os analistas profissionais previam 4,4% de desemprego no quarto trimestre, o Fed 4,6%. Como a taxa real de desemprego em julho foi de apenas 3,5%, para atender a essas previsões seria necessário que a economia caísse de um precipício a partir de agora –e não há sinais de que isso esteja acontecendo.
No entanto, a maioria das críticas que ouvi ao Fed e outros os repreendeu por excesso de otimismo. Reduzir a inflação, insistiu um coro de economistas, exigiria aumentos muito maiores do desemprego. Mais notavelmente, Larry Summers declarou que precisaríamos de algo como dois anos de 7,5% de desemprego para reduzir a inflação para 2%; outros ofereceram diagnósticos amplamente semelhantes, embora menos extremos.
OK, ainda não atingimos 2% (e não está claro se deveríamos atingir), mas certamente vimos o suficiente para concluir que tais alegações estavam totalmente erradas. Então, os pessimistas chegaram a um acordo com essa realidade?
Uma delas é a alegação de que grande parte do progresso contra a inflação é, em certo sentido, ilusória, de que a inflação subjacente ainda está bem acima de 4%. Agora, existem por aí medidas suficientes de inflação subjacente que, se você escolher bem, ainda conseguirá ser pessimista, mas a evidência preponderante –mais os resultados de algoritmos independentes que usam um processo consistente para separar o sinal do ruído– sugere inflação subjacente em torno de 3% e caindo.
Outra é a afirmação de que os pessimistas da desinflação estavam simplesmente aplicando modelos econômicos padrão, de modo que a falha estava nos modelos, e não neles mesmos.
Mas isso simplesmente não é verdade. Os modelos padrão dizem que a desinflação é muito cara se a inflação alta persistente estiver entrincheirada nas expectativas. E estava ou deveria estar claro, mesmo um ano atrás, que essa não era uma boa descrição da atual economia dos Estados Unidos. Isso não é retrospectiva 20-20: argumentei um ano atrás, no auge do pessimismo da inflação, que as analogias com as dolorosas consequências da década de 1970 estavam todas erradas. E fiquei, francamente, chocado ao ver economistas inteligentes ignorarem alegremente as óbvias diferenças de circunstâncias.
Eu esperava que a desinflação viesse tão indolor quanto veio? Não. Mesmo os otimistas da inflação claramente precisam repensar. Mas os pessimistas da inflação realmente precisam fazer o que os otimistas da inflação fizeram um ano atrás, e perguntar como eles erraram tanto, efetivamente pedindo políticas que teriam deixado milhões de pessoas desempregadas.
Como eu disse, não era partidarismo; a direita americana tornou-se tão divorciada da realidade empírica que não desempenhou nenhum papel nesse debate. O que eu suspeito, no entanto, é que alguns economistas muito bons foram pegos numa versão do problema das Pessoas Muito Sérias da década de 2010, em que o desejo de parecer obstinado levou muitas vozes da elite a ficarem obcecadas pelos déficits orçamentários, quando deveriam ter focado na geração de empregos inadequada.
A boa notícia é que, embora o Fed tenha realmente tentado engendrar uma recessão para controlar a inflação, não conseguiu: apesar do aumento das taxas de juros, a economia continuou avançando. Por que isso aconteceu é outra questão. Mas os pessimistas realmente precisam lidar com o fato de que a desinflação aconteceu, de qualquer maneira.
Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves




