Nem todos sabem, mas, na história da filmografia nacional, há um filme de 1964, dirigido por Glauber Rocha, considerado marco do cinema novo, cujo título é “Deus e o diabo na terra do sol”.
Sem que o jogo de volta da semifinal da Champions, entre Real Madrid e Bayern Munique, tenha nada a ver com o filme, aqui se toma emprestado o título para comentar o que aconteceu no Santiago Bernabéu na última quarta-feira, 8 de maio: o dia em que se revelou ser mentira a preferência dos deuses dos estádios pelo clube merengue, quase 15 vezes campeão continental, nove Orelhudas a mais que os bávaros, os segundos maiores vencedores.
Quase porque ainda falta derrotar os também alemães do Borussia Dortmund no dia 1º de junho, em Londres, no santuário de Wembley.
Que receberá o time espanhol que tem pacto com o diabo.
Porque só tal parceria explica a virada espanhola sobre os germânicos, embora o treinador Thomas Tuchel, e um certo bandeirinha polonês, também tenham a ver, além do goleiro Manuel Neuer.
Para não falar, é claro, de Vinícius Júnior, com o capeta no corpo, e de Joselu, 34 anos, autor dos dois gols da virada ao sair do banco de reservas, em três minutos, no extertores do maior clássico internacional interclubes do Planeta Bola.
Comecemos pelo começo.
Neuer fez, no primeiro tempo, três defesas aparentemente impossíveis. Não as chamaremos de milagres porque este texto já contém fenômenos extraterrestres em demasia.
No segundo tempo fez mais duas intervenções dessas de cair o queixo.
Mas bateu roupa bisonhamente em arremate do endiabrado Vini Jr. para conceder ao veterano Joselu o rebote e o gol do empate. Raras vezes alguém foi tão herói e tão vilão em apenas 90 minutos.
Seu time vencia ao aproveitar um raro contra-ataque na etapa final, em lançamento do predestinado inglês Harry Kane ao criticado, pela torcida do Bayern, canadense nascido em Gana, Alphonso Davies, 23, que havia substituído o machucado Gnabry ainda nos 45 minutos iniciais.
O predestinado, no caso, não é ao sucesso, embora Kane seja dos maiores goleadores da história.
Está escrito em algum decreto diabólico que ele jamais será campeão de coisa alguma, nem no Bayern, que viu o Leverkusen impedir seu 12º título alemão seguido, exatamente no ano em que o inglês mudou-se de armas e bagagens para Munique, onde seguiu marcando gols aos borbotões, porém longe dos troféus.
Quando tudo parecia liquidado, o estádio em êxtase, eis que o Bayern empata 2 a 2, mas com a jogada previamente paralisada pela mão nervosa de um bandeirinha que viu impedimento em lance pra lá de duvidoso.
Tomasz Listkiewicz é o nome chato de pronunciar do trapalhão que, decente, pediu desculpas após o jogo —tão verdadeiras como francamente inúteis.
Mal sabe Listkiewicz que não foi ele quem padeceu de levantamento de braço precoce, mas o capiroto que o invadiu e precisará ser exorcizado.
Embora deva passar os próximos anos longe da Baviera, ele pode também se socorrer com Tuchel.
O treinador alemão não só pôs o zagueiro sul-coreano Kim Min-jae muito cedo para segurar o resultado como ainda sacou Kane mesmo ainda com o risco do empate e da prorrogação.
Com o que chamou o Real para cima —e os madridistas têm Carlo Ancelotti no comando, capaz de tirar Rodrygo e botar Joselu.
Entendeu onde o diabo mora?




