Mesmo quem passou a vida inteira negando ou chamando de “mimimi” a discriminação racial, parece concordar que com o jogador Vinicius Jr é realmente racismo. As manifestações racistas já eram irrefutáveis, em 2017, contra o então jogador do Flamengo, mas atingiram estágio mais crítico com sua chegada ao Real Madrid, o que provocou posicionamentos das autoridades do Brasil e da Espanha e campanhas contra o racismo no futebol.
É essencial ver mais de perto para entender por que o racismo surgiu de forma tão virulenta nesse caso. O ódio das arquibancadas contrasta com a alegria com que Vini Jr joga e comemora seus gols. E é esta a chave para as reações violentas. Vini expressa a corporeidade alegre de quem comemora sorrindo. É um jovem negro retinto que encarna o jogo bonito e alegre, somado à irreverência que contesta a sisudez de quem esperaria dele expressão contida. Ante o racismo, ele comete o crime que vai além daquele descrito pelo escritor congolês JJ Bola: o involuntário ato de respirar.
A morte violenta de jovens negros, sobretudo por instituições policiais, é a materialização desse desejo de constrição e de brutalização de corpos negros masculinos. Um reflexo da afronta que certa masculinidade branca sente quando o jovem negro transborda presença, impõe seu ritmo e brinca. A sociedade da branquitude não suporta o gozo da masculinidade negra, sua pulsão de vida em êxtase. É preciso reprimir. É preciso prender. É preciso nos matar.
Felizmente, a história de Vinícius aponta para outra narrativa. O caminho da liberdade e do crescimento sem amarras do ser humano que é ainda maior do que o jogador. É esse espírito da juventude negra brasileira que tem feito o país mudar naquilo que ainda pode gerar esperança. Nossa luta é para que instituições de todas as partes do mundo, erguidas historicamente com a argamassa do racismo, possam se beneficiar da generosidade de muitos Vinicius que vêm contribuindo para a evolução social. E que fiquem para trás as que promovem pulsão de morte violenta, afogadas em sua própria agressividade.
Que hoje, na final da Liga dos Campeões, possamos ver mais uma vitória de Vini Jr. Não apenas a esportiva, pela qual também torço, mas a vitória da pulsão de vida deste jovem que, como masculinidade negra que se pretende livre, é também minha, do meu pai, do meu filho.




