O chef israelense Avishay Argentaro, sobrevivente de um dos ataques do Hamas a um kibutz em 7 de outubro de 2023, visitou na última semana a Rocinha, favela na zona sul do Rio de Janeiro, para apresentar a culinária judaica aos moradores.
Convidado pela Embaixada de Israel e pela Fierj (Federação Israelita do Rio de Janeiro), Argentaro, 42, reuniu-se com chefs brasileiras e 15 mulheres que fazem parte de um projeto social de cozinha saudável na Biblioteca Parque da Rocinha, na terça-feira (1°). Lá, preparou um sanduíche com pão árabe, tahine, berinjela, pepino, tomate e ovos cozidos.
A visita ao Rio contou com um passeio pelas ruas da Rocinha e por uma visita, no domingo (29), a um quiosque na praia do Leblon. O chef israelense afirmou ter adorado feijoada, churrasco e farofa.
“Mas o que mais gostei no Brasil foram as pessoas”, diz. “Parecem calmas e são quem elas são. Se você não machucar ninguém, tudo fica tranquilo. São felizes e gosto disso”.
Avishay vivia com a família em Kfar Aza, um kibutz no sul de Israel a 3 quilômetros da Faixa de Gaza. Colônia agrícola, Kfar Aza foi uma das primeiras localidades invadidas pelo Hamas no 7 de Outubro, com moradores mortos e sequestrados.
Sob sol na laje da biblioteca na Rocinha, Argentaro conta que nos últimos 20 anos o cotidiano era de “bombas o tempo todo”, algo com o que se acostumou. Mas as 24 horas iniciadas com o ataque de 7 de outubro foram as piores da vida.
“Ficamos 24 horas no escritório sem comida, sem banheiro e com dois filhos, um bebê de 3 meses e um menino de 7 anos. Ouvimos os passos dos terroristas e os vimos tentando abrir a porta. Lutamos para bloquear a porta, tentaram atirar em nós.”
A aflição de Argentaro também era com os outros familiares: os pais estavam em uma casa em outra localidade também atacada por terroristas. No celular, recebia mensagens via WhatsApp de amigos machucados.
“Não poderia fazer nada para ajudá-los, não tenho arma. Fui para dentro do esconderijo, esperei os terroristas virem. Era a única oportunidade de proteger minha família. Por dez minutos, você sente o medo de toda a sua vida, toda a adrenalina de saber que em algum momento alguém vai te matar”, afirma.
“Sinto-me, honestamente, abençoado depois de toda essa loucura. É como se Deus dissesse: amigo, agora escolha o que você quer fazer e construa algo novo.”
Argentaro afirma fazer parte da 12ª geração da família, originária de Safed, também conhecida como Tzfat, uma cidade na Galileia, no norte de Israel. Na infância, a comida da avó despertou a atenção para a cozinha. “Adorava comer, cheguei a pesar 90 quilos”, diz.
Mudou-se para Kfar Aza, ao sul, depois da separação dos pais. Lá, virou chef e chegou a participar de um reality show culinário.
Avishay é um deslocado interno agora baseado em Tel Aviv, onde o governo israelense ofereceu moradia e um prazo de três anos até que uma nova casa esteja pronta. A ideia do chef é percorrer cidades brasileiras e outros países, como a Alemanha, para apresentar a culinária judaica.
“Cozinhar é como uma terapia para mim e também uma forma de descobrir o mundo e novas relações. Minha intenção agora é viajar o mundo e contar minha história e a história da cozinha da minha família, não importando se vou falar para uma comunidade judaica, cristã, ou muçulmana.”




