Trump recebeu de presente a cruz do imperador Constantino das mãos do arcebispo Elpidophoros, da Igreja Ortodoxa Grega dos Estados Unidos. O líder religioso acrescentou: “Rezo para que o Senhor traga paz ao mundo e torne a América invencível”. Qual o significado desse gesto que compara Trump a essa figura histórica?
A entrega ocorreu durante a cerimônia, na Casa Branca, por ocasião da celebração do 224º aniversário da independência grega. O arcebispo citou a tradição associada a esse símbolo. O imperador Constantino teria tido um sonho no qual viu a cruz no céu acompanhada da mensagem: “Com este sinal, vencerás”.
Ao se converter ao cristianismo, Constantino, o Grande, pôs fim às perseguições contra os cristãos em Roma. Seu gesto foi celebrado por Eusébio, bispo de Cesareia e historiador do cristianismo: “Em todas as cidades o imperador vitorioso publicou decretos cheios de humanidade e leis que davam prova de munificência e verdadeira piedade. Toda tirania havia sido expurgada”.
O “match” entre Constantino e os bispos era tão bom que o mais importante concílio da história cristã, Niceia no ano de 325 d.C., foi presidido pelo imperador. Em Niceia foi decretada a divindade de Jesus, unificada a data da celebração da Páscoa e estabelecida a estrutura de governo da igreja cristã.
Teria Donald Trump a oportunidade de realizar gestos como os de Constantino em benefício das igrejas cristãs? Afinal, passados 1700 anos, os tempos são outros. No Império Romano os discípulos do nazareno eram de fato uma minoria contracultural perseguida. Nos Estados Unidos da atualidade, cristãos conservadores estão mais para uma minoria ressentida pela suposta perda da hegemonia dos valores cristãos na sociedade.
O significado da imagem de Trump segurando a cruz de Constantino é semelhante à imagem dele segurando uma Bíblia. Segundo o historiador da USP Marcelo Rede, em artigo nesta Folha, ao posar com a Bíblia nas mãos, Trump reforça a imagem de líder político ungido por Deus para realizar sua vontade na Terra.
Se Constantino pôs fim às perseguições e prisões movidas contra os cristãos, Trump busca combater algo menos objetivo, mas presente nas falas de cristãos conservadores, e que ele tem chamado de “viés anticristão de políticas públicas do governo e das universidades”.
A criação do “Escritório da Fé” e da força-tarefa liderada pela secretária de Justiça Pam Bondi demonstra a disposição de Trump em implementar ações que beneficiem grupos cristãos conservadores, que foram importantes para sua eleição. Esse esforço tem o encargo de “identificar políticas, práticas ou condutas anticristãs ilegais” e propor medidas para revogá-las ou encerrá-las.
A pergunta que me faço, enquanto cristão e pastor, é: Donald Trump ajuda ou atrapalha o testemunho da fé ao utilizar seu poder presidencial para defender pontos de vista dos cristãos conservadores? A almejada recuperação da influência cristã na sociedade estadunidense virá de um Trump “constantinizado”?
Minha resposta vem do aprofundamento da comparação sugerida pelo arcebispo Elpidophoros entre Trump e Constantino. A influência do imperador sobre a igreja fez com que Jesus deixasse de ser retratado como o prisioneiro romano crucificado e passasse a ser visto como o Cristo “Pantocrator”, o Cristo “Todo-poderoso”, algo muito mais próximo de como o imperador romano se via e como Donald Trump, o “aprendiz” de imperador, se vê.
A cruz nas mãos de Trump nada tem a ver com o Cristo crucificado no qual eu creio. A cruz de Constantino nas mãos do presidente é escárnio aos valores de amor e vulnerabilidade que fizeram com que Jesus fosse crucificado pelos poderosos da religião e da política do seu tempo. Como pode o “aprendiz” de Constantino tomar em suas mãos o símbolo cristão da fraqueza enquanto se vale de políticas persecutórias para “crucificar” trabalhadores imigrantes, estudantes pró-Palestina e LGBTQIA+?




