Cuba prendeu nesta terça-feira (29) o opositor José Daniel Ferrer, acusado de violar os termos de sua liberdade condicional. A nova detenção ocorre apenas três meses após sua libertação, resultado de um acordo mediado pelo Vaticano com o governo dos Estados Unidos ainda sob Joe Biden.
Ferrer, 54, deixou de comparecer a duas audiências judiciais obrigatórias, em violação à legislação cubana e às condições de sua liberdade condicional, de acordo com Maricela Sosa, vice-presidente do Tribunal Popular Supremo de Cuba.
“Não apenas ele não compareceu, mas também anunciou, por meio de seu perfil nas redes sociais, em flagrante desafio e descumprimento da lei, que não se apresentaria perante a autoridade judicial”, disse Sosa à agência Reuters na manhã desta terça.
A irmã do opositor, Ana Belkis Ferrer, afirmou nas redes sociais que ele havia sido detido pela polícia na manhã desta terça, assim como sua esposa, Nelva, seu filho e vários ativistas. “Exigimos sua libertação imediata e a de todos os detidos e presos políticos”, escreveu na rede social X.
O ativista José Daniel Ferrer mora em Santiago de Cuba e alega ter sido preso de forma injusta pelas autoridades do país. Ele sustenta que sua participação em audiências judiciais era desnecessária.
Um tribunal da província de Matanzas —cerca de 100 km a leste de Havana— revogou a liberdade condicional de Félix Navarro, outro opositor conhecido do regime cubano. A decisão foi motivada pelo fato de ele ter deixado seu município sete vezes sem autorização prévia do juiz de execução, “em flagrante desrespeito à lei”.
Navarro havia sido condenado a nove anos de prisão por participar dos protestos contra o regime que tomaram a ilha em julho de 2021. Segundo Maricela Sosa, ele também violou os termos da condicional ao sair do município onde vive sem solicitar autorização judicial.
“Além de não cumprirem com os termos de sua liberdade condicional, [Ferrer e Navarro] são pessoas que publicamente convocam à desordem e ao desrespeito às autoridades em seus ambientes sociais e online, e mantêm laços públicos com o chefe da embaixada dos Estados Unidos”, disse Sosa.
A magistrada afirmou que a prisão dos dois homens nesta terça-feira “não está diretamente ligada a esses comportamentos”, mas que uma investigação complementar será conduzida.
Ferrer e Navarro estavam entre os 553 prisioneiros libertados em janeiro como parte de um acordo entre Cuba e o Vaticano, após a decisão do ex-presidente Biden de remover a ilha da lista de Estados patrocinadores do terrorismo, uma medida posteriormente revogada por Donald Trump.
Ferrer fundou, em 2011, o grupo de oposição União Patriótica Nacional (Unpacu) e figura entre os mais recentes e notórios dissidentes da ilha controlada pelo regime comunista.
Após ser libertado em janeiro, ele começou a operar um refeitório comunitário em sua casa. O ativista alegou, no entanto, que o governo vinha assediando sua família e sua equipe, o que tornava inviável a continuidade da iniciativa de fornecer alimentos aos pobres.
Cuba há anos acusa os EUA de financiar a dissidência de Ferrer como parte de uma estratégia para desestabilizar o regime.
Em fevereiro, o chefe da missão diplomática dos EUA, Mike Hammer, visitou Ferrer em sua casa. O Departamento de Estado americano foi procurado, mas não respondeu aos pedidos de comentário sobre a nova prisão do ativista.




