Perto dos 200, Bolívia vive crise política e de identidade – 07/06/2025 – Sylvia Colombo

Perto dos 200, Bolívia vive crise política e de identidade


Em 6 de agosto de 1825, uma assembleia reunida na cidade de Sucre declarava a independência de um novo país na América do Sul: a Bolívia. Nascida como república autônoma a partir do antigo Alto Peru, a nova nação ganhou o nome de Simón Bolívar, o libertador continental, que aceitou a ideia com reticências.

Em carta ao general Sucre, Bolívar disse que temia que o país fosse pequeno demais para ser viável, cercado de vizinhos poderosos, com uma elite dividida e uma imensa população indígena à margem do poder. Duzentos anos depois, a Bolívia segue habitada pelo mesmo paradoxo: um projeto político que, em várias fases, voltou-se contra sua própria diversidade.

A celebração do bicentenário, neste ano de 2025, encontra o país em nova fase de turbulência: com a economia em crise e seus dois principais líderes populares —o atual presidente, Luis Arce, e seu ex-aliado e ex-presidente, Evo Morales— numa guerra fratricida que diluiu o partido que era de ambos, o MAS (Movimento ao Socialismo).

A história boliviana é marcada por fraturas internas e perdas externas. No século 19, a Bolívia perdeu territórios decisivos: cedeu o Acre ao Brasil, entregou seu litoral ao Chile após a Guerra do Pacífico (1879–1884), e teve parte de sua Amazônia e do Chaco anexadas por países vizinhos.

Internamente, o padrão de exclusão persiste. Por décadas, a população indígena foi impedida de votar, estudar, ou participar da vida pública. A revolução de 1952 foi o primeiro ponto de inflexão, ao promover o voto universal, a reforma agrária e a nacionalização das minas. Mas o impulso reformista durou pouco, tragado por crises econômicas, golpes militares e pela dependência externa.

A Constituição de 2009, sob o governo de Evo, representou uma nova tentativa de refundar o país, agora como “Estado Plurinacional”. A nova carta reconheceu as nações indígenas, seus idiomas e formas de organização, e promoveu a ideia de um país com múltiplas identidades. Foi um gesto histórico, mas que também desencadeou resistências. Departamentos como Santa Cruz, de perfil mais conservador e ligado ao agronegócio, passaram a exigir maior autonomia e confrontaram o governo central.

Esse embate entre centro e periferia, entre o projeto de integração nacional e os interesses locais, segue vivo. Em 2025, a Bolívia atravessa uma crise de representação às vésperas do período eleitoral de agosto. O partido que governou por quase duas décadas está rachado, e Evo está impedido de participar do pleito. A primeira pesquisa eleitoral depois dessa decisão aponta um cenário ate pouco tempo improvável: um segundo turno apenas com candidatos de direita.

A data simbólica dos 200 anos é mais que um marco histórico: é uma oportunidade para refletir sobre o atual projeto de país. A Bolívia, com suas riquezas em lítio, sua diversidade cultural e sua posição geográfica estratégica —trata-se do país com quem o Brasil tem sua mais longa fronteira—, poderia ocupar um papel central na América do Sul. Mas, para isso, precisa confrontar o impasse original de sua fundação: tornar-se uma república para todos os seus habitantes, não apenas um experimento da elite do passado.

A história boliviana é feita de rupturas e recomposições. Talvez, em seu aniversário de 200 anos, seja a hora de reinventar novamente seu futuro.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.



Fonte CNN BRASIL

Leia Mais

Tênis: Brasil se garante em playoff mundial da Billie Jean

Tênis: Brasil se garante em playoff mundial da Billie Jean King Cup

abril 12, 2026

naom_69da5f09e622f.webp.webp

Arsenal perde para Bournemouth, reacende o City e deixa título da Premier League em risco

abril 12, 2026

Vírus sincicial também traz risco para idosos, alertam especialistas

Vírus sincicial também traz risco para idosos, alertam especialistas

abril 12, 2026

naom_694d073aebb53.webp.webp

Lula sanciona lei do marco regulatório da vacina contra o câncer

abril 12, 2026

Veja também

Tênis: Brasil se garante em playoff mundial da Billie Jean

Tênis: Brasil se garante em playoff mundial da Billie Jean King Cup

abril 12, 2026

naom_69da5f09e622f.webp.webp

Arsenal perde para Bournemouth, reacende o City e deixa título da Premier League em risco

abril 12, 2026

Vírus sincicial também traz risco para idosos, alertam especialistas

Vírus sincicial também traz risco para idosos, alertam especialistas

abril 12, 2026

naom_694d073aebb53.webp.webp

Lula sanciona lei do marco regulatório da vacina contra o câncer

abril 12, 2026