Dias atrás, Kamala Harris conversou com Stephen Colbert, âncora do programa The Late Show, da rede CBS. Foi a primeira entrevista desde a derrota para Donald Trump em 2024. A ex-vice-presidente tratou do livro que lançará em breve, sobre os 107 dias de campanha para a Casa Branca. Colbert perguntou se ela escreverá algo como “eu bem que avisei”. E a resposta: “Previ muito do que está acontecendo. O que não previ foi a capitulação”.
O uso do termo “capitulação” poderia ter rendido uma entrevista mais instigante do que saber que Kamala se refugiou em casa, após a posse de Trump, distraindo-se com programas de culinária. Capitular é assunto grave. Complexo. Algumas capitulações mudaram a História, vide a Alemanha nazista e o Japão depois dos bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki, em 1945. Afinal, de que capitulação fala a ex-vice-presidente? Do partido? De instituições que se rendem a Trump? Dos países que pedem clemência diante das tarifas?
Kamala pode não ter sido muito precisa, porém, não está equivocada. O sentimento de impotência diante da autocratização que avança nos Estados Unidos abala incontáveis setores. Como reagir quando ideias desestabilizadoras e ordens sem lastro são propagadas sem cessar, para bilhões de pessoas no mundo?
A desorientação do Partido Democrata, ainda um front de contenção do projeto político-financeiro de Trump, perdura além do desejável. A meses das primárias de 2026, que antecipam as eleições de meio de mandato em novembro do próximo ano, o que se vê é um partido fraturado e abatido. Kamala promete um livro inspirador, que anime o eleitorado. Joe Biden também prepara o seu, sobre o tempo que passou na Casa Branca. Editores correm com o lançamento, preocupados com a sua saúde. Legítimos com certeza, qual será o impacto político destas obras?
Diante do consenso de que o partido se elitizou, outra estratégia democrata é colocar o pé na estrada. Kamala não disputará o governo da Califórnia, mas viajará pelo país “como uma cidadã comum”, que não é. Movimento similar faz Joe Kennedy 3º, neto de Bobby Kennedy, assassinado em 1968. Hoje sem mandato, Joe reedita a célebre viagem do avô pelo delta do Mississipi, quando se deparou com um país pobre e faminto. E há a aposta no door-knocking, ou seja, bater de porta em porta, em todos os distritos eleitorais.
Mas são estratégias lentas diante de um celerado que governa o país como se fosse um reality show. Além da rede Truth Social, Trump inaugurará uma plataforma exclusiva de streaming. Sua ânsia de exposição só não é menor do que a profunda ojeriza à derrota.
Elissa Slotkin, ex-analista da CIA e senadora democrata em primeiro mandato, adotou a estratégia de falar muito. Já incomoda. Insiste na renovação das fileiras partidárias, “mesmo abatendo algumas vacas sagradas”. Acredita que potenciais candidatos em 2028 têm que circular desde já. Fortalecer a classe média é prioridade zero. E adverte: política se faz com a “energia alfa” dos Detroit Lions, seu time de futebol americano.
O problema é que Trump tem tempo de sobra para moldar o país ao seu projeto. Deveria ser tratado como grave ameaça para a democracia agora? Ou como um problema com data de validade? Slotkin quer apresentar um “plano de guerra” para enfrentar o presidente agora. Certa ou errada, a senadora de Michigan não pretende capitular.




