Desaconselhado publicamente pela chefia de seu Exército a tomar a capital homônima de Gaza, Binyamin Netanyahu deu de ombros. Priorizou seu projeto de sobrevivência política com um plano militar que, pela experiência pregressa, tem tudo para apenas enxugar gelo na tragédia em curso.
Desde que iniciou a retaliação pelo mais brutal atentado contra Israel desde a fundação do Estado judeu, em 1948, o primeiro-ministro vende a ideia de que iria destruir o Hamas, o grupo terrorista que controla a Faixa de Gaza desde que venceu lá a disputa fratricida com a Autoridade Nacional Palestina em 2007.
Sempre faltou algo para esse fim ser atingido por um motivo simples: é impossível erradicar o Hamas, salvo aderindo à sugestão de parlamentares ultraortodoxos que apoiam Netanyahu de empregar 1 das 90 ogivas nucleares do país contra o território. O fato de que Israel toda seria afetada pela radiação escapou aos radicais.
No ano passado, Netayahu prometeu que acabaria o serviço se invadisse a populosa Rafah, que fica na fronteira da faixa com o Egito. Invadiu, houve mais destruição e morte, e a atual crise humanitária com ares apocalípticos foi desenhada. O Hamas seguiu onde estava.
Para piorar, a “manu militari” israelense não conseguiu libertar um número considerável de reféns do Hamas. O grosso que voltou a ver a luz do dia até aqui o fez por meio de negociações. A ação contra a cidade de Gaza tende a deixar mais mortos do que libertados.
O que Israel podia fazer foi feito: o Hamas foi incapacitado de promover um outro 7 de Outubro e, no limite, tornou-se uma força irregular de guerrilha. Só que mantém domínio férreo sobre Gaza, com o fracasso até aqui de clãs tribais rivais apoiados por Tel Aviv em desafiar seu poder.
É possível argumentar que o Hamas reina inerte sobre ruínas e corpos, mas sua presença no comando é inaceitável para Israel e seu principal aliado, os Estados Unidos. Dado o histórico, nada indica que o plano de Netanyahu terá sucesso.
Ele é exequível, claro, para manter Israel em um modo de guerra permanente e garantir a manutenção por ora da coalizão que mantém Netanyahu, de resto enrolado com a Justiça, no poder.
O 7 de Outubro já foi saudado por deputados radicais da direita religiosa do país como uma oportunidade, dado que neste momento o Estado judeu conseguiu redesenhar a dinâmica do Oriente Médio todo em seu favor.
Foram desarticuladas as capacidades do arquirrival Irã na região, primeiro com o Hamas, depois com o Hezbollah libanês e, por fim, com Teerã em si. A Síria de Assad caiu com apoio turco, e Tel Aviv na prática anexou uma faixa no sul do vizinho, além de destruir o que restava de suas forças ofensivas.
No plano de Donald Trump, o cenário se consolidaria com a expansão dos acordos de paz dos países árabes com Israel, que ele disparou em seu primeiro mandato. Netanyahu acena a isso ao dizer que entregará o controle de Gaza a árabes —a quem, não se sabe.
Este é um ponto que pode ser visto como positivo do plano. O problema é tudo o que vem antes, que politicamente inviabiliza tal aliança entre as potências regionais, que de resto sempre rifaram os palestinos, apesar de usá-los como bandeira.




