Xi Jinping agendou para outubro a 4ª sessão plenária do Comitê Central do Partido Comunista, passo decisivo para definir as metas do 15º Plano Quinquenal. A reunião reunirá a cúpula de um partido que governa de forma centralizada e que vê no planejamento estatal a principal ferramenta para moldar o futuro do país. Em um cenário de pressões externas, tensões internas e mudanças estruturais, cada decisão desse encontro tende a reverberar por anos.
Os planos quinquenais são a espinha dorsal do modelo chinês desde a década de 1950. Eles alinham prioridades econômicas, sociais e políticas em um roteiro único que combina ambição de longo prazo com ajustes táticos. O próximo, que vai de 2026 a 2030, sucederá um ciclo voltado à autossuficiência tecnológica, à segurança de recursos estratégicos e à redução de desigualdades. Desta vez, a formulação incluiu uma consulta pública online com mais de três milhões de contribuições.
Essa abertura controlada à participação popular é apresentada como exemplo da “democracia de processo completo”. Embora não mude o caráter centralizado das decisões, sinaliza que a liderança busca ouvir percepções da sociedade e captar demandas latentes. Entre elas estão apoio à natalidade, mais proteção social e melhor qualidade de vida, pontos que precisam ser endereçados para evitar tensões.
Além de todos estes pontos tão sensíveis, há motivos para crer que a prioridade deste novo plano deve se centrar também em outro tema: tecnologia. Quem busca pistas sobre as prioridades do novo plano viu em um encontro na região litorânea de Hebei nesta semana indícios do tema.
Beidaihe, tradicional balneário político da China, é palco há décadas de reuniões informais que reúnem líderes atuais e veteranos para trocar impressões e calibrar consensos. Originalmente um espaço onde Mao Tse-tung e outros dirigentes definiam grandes estratégias, hoje serve como retiro estratégico em pleno verão. Neste ano, o evento foi aberto por Cai Qi, braço direito de Xi Jinping, que recebeu dezenas de cientistas e acadêmicos.
Ao iniciar o encontro com representantes das áreas mais avançadas da pesquisa e da inovação, a liderança sinaliza que ciência e tecnologia devem ocupar papel central nas diretrizes do próximo ciclo. A escolha do público e da pauta não é acidental e sugere que Pequim pretende acelerar a corrida tecnológica diante da pressão competitiva global.
As conversas em Beidaihe, quase sempre secretas, também devem influenciar políticas para modernização agrícola e industrial, combate ao desemprego juvenil e gestão do impacto da automação sobre milhões de trabalhadores migrantes. A meta de manter crescimento próximo a 5% exigirá estímulo ao consumo interno e garantia de soberania alimentar frente a riscos climáticos e turbulências comerciais. O equilíbrio entre inovação, segurança e estabilidade social será um teste de habilidade política.
Mais do que um evento simbólico, Beidaihe funciona como espaço de teste para ideias e alinhamento estratégico. É a partir desse laboratório que o partido cristaliza objetivos e estratégias para o próximo ciclo. O que se delinear ali influenciará não apenas o rumo da China nos próximos cinco anos, mas também o cenário econômico e geopolítico global no qual outros países, Brasil incluído, terão de se mover.




