Milhares de pessoas se reuniram em Daca, a capital de Bangladesh, nesta terça-feira (5) para marcar o primeiro aniversário dos protestos em massa que derrubaram a então primeira-ministra Sheikh Hasina. O atual governo interino revelou um roteiro para uma reforma democrática, com previsão de uma eleição nacional no próximo ano.
Comícios, concertos e sessões de oração foram realizados na capital enquanto as pessoas celebravam o que chamaram de “segunda libertação”.
Os eventos culminaram com Muhammad Yunus, líder do governo interino e Nobel da Paz, lendo a chamada Declaração de Julho, que busca dar reconhecimento constitucional à revolta liderada por estudantes em 2024 em resposta à repressão e dificuldades econômicas que forçaram Hasina a fugir para a Índia no dia 5 de agosto do ano passado.
“O povo de Bangladesh expressa seu desejo de que a revolta estudantil-popular de 2024 receba o devido reconhecimento estatal e constitucional”, disse Yunus. “A Declaração de Julho figurará no cronograma da Constituição reformada conforme elaborada pelo governo formado através da próxima eleição nacional”, disse ele.
Apoiadores veem a carta como uma base para a reforma institucional; críticos dizem que seu impacto pode ser amplamente simbólico na ausência de um arcabouço legal ou consenso parlamentar.
Yunus afirmou que pediria à comissão eleitoral para organizar eleições nacionais, a serem realizadas em fevereiro de 2026.
“Devemos garantir que nenhum governo futuro possa se tornar fascista novamente. O Estado deve ser reparado de tal forma que, sempre que sinais de fascismo forem encontrados em qualquer lugar, possam ser erradicados imediatamente”, disse ele.
Partidos políticos, particularmente o Partido Nacionalista de Bangladesh (BNP) liderado pela ex-primeira-ministra Khaleda Zia, têm instado que as eleições sejam realizadas antes do final de 2025 para evitar um vácuo político.
Já Yunus afirmou que a eleição do próximo ano poderia ser pacífica, justa e transparente.
Embora a Liga Awami, partido de Hasina, permaneça suspensa, muitos acreditam que ela deveria ser autorizada a participar do pleito, apesar de sua alta liderança enfrentar processos por supostas violações de direitos humanos durante os protestos do ano passado.
“Autocratas caídos e seus aliados interesseiros permanecem ativos”, disse Yunus, pedindo unidade para proteger os ganhos da revolta enquanto seu governo mantém conversas com partidos políticos e a sociedade civil.
O governo interino já havia lançado reformas abrangentes enquanto os julgamentos dos responsáveis pelo que ele chamou de assassinatos de julho de 2024 progrediam rapidamente, afirmou Yunus.
Multidões agitando bandeiras, segurando cartazes e entoando slogans se reuniram perto do Parlamento, incluindo alguns que haviam sido feridos nos protestos.
“Neste dia em 2024, a tirana Sheikh Hasina fugiu do país”, disse Ahmedul Hasan. “Eu estava aqui no ano passado também. Vim novamente para lembrar aquele momento e participar das celebrações.”
Outros estavam menos exultantes. “Mesmo depois de todo o derramamento de sangue e sacrifício, uma democracia verdadeiramente liberal em Bangladesh ainda parece um sonho distante”, disse Sabbir Ahmed, um estudante universitário que participou dos protestos no ano passado.
A polícia estava em alerta por toda a capital, com veículos blindados em patrulha para impedir qualquer tentativa da Liga Awami de interromper os eventos.
“Que este aniversário não seja um dia de retrospectiva, mas um grito de união por um amanhã mais brilhante”, disse Hasina, do exílio, em uma carta aberta ao povo de Bangladesh, acrescentando que nunca renunciou como primeira-ministra. “Bangladesh já superou adversidades antes, e nós nos levantaremos novamente, mais fortes, mais unidos e mais determinados a construir uma democracia que verdadeiramente sirva ao seu povo”, disse ela.




