Lacunas têm chamado a atenção de Washington, D.C., por décadas.
Durante a Guerra Fria, havia a lacuna dos mísseis, baseada na falsa premissa de que a União Soviética estava superando os Estados Unidos na acumulação de armas nucleares. Economistas há muito debatem sobre a lacuna salarial, e pesquisadores eleitorais passaram incontáveis horas dissecando a lacuna de gênero após a eleição do ano passado.
A mais nova lacuna que surgiu na capital do país, no entanto, tem a ver com ouro.
A “lacuna dourada” separa o Salão Oval do presidente Donald Trump, que ele adornou com detalhes dourados e enfeites desde que assumiu o cargo em janeiro, e uma nova réplica em tamanho real recém-redesenhada que fica do outro lado da rua, na exposição People’s House (Casa do Povo) da Associação Histórica da Casa Branca.
A associação existe desde 1961, mas o tour imersivo pelo Salão Oval foi inaugurado apenas no ano passado, com o objetivo de ser uma réplica exata da sala mais famosa do país. Até a transformação promovida por Trump ser revelada no fim do mês passado, os visitantes viam uma sala praticamente idêntica à ocupada pelo ex-presidente Joe Biden.
Mas a lacuna dourada faz com que a nova réplica esteja longe de ser exata.
“Estamos replicando toda a permanência do presidente Trump no Salão Oval”, disse Luke Boorady, diretor-gerente da exposição, “começando com a decoração do seu primeiro mandato.”
Ann Compton, presidente do conselho consultivo da associação, disse que a decisão de voltar no tempo foi puramente logística.
“Você não pode simplesmente comprar as coisas que estão lá agora”, disse Compton. “Você precisa mandar fazer.”
“Simplesmente não deu tempo de fazer tudo,” declarou.
Trump, um empresário do ramo imobiliário com opiniões fortes —e fortemente douradas— sobre design de interiores, tem feito mais alterações no complexo da Casa Branca durante seu segundo mandato. Ele cimentou o Jardim das Rosas, transformando-o em um pátio ao estilo Mar-a-Lago, após lamentar que os saltos altos das mulheres “afundavam na grama”. Em junho, supervisionou a construção de dois mastros de bandeira de cerca de 27 metros que flanqueiam a Casa Branca. E na semana passada anunciou seu mais novo projeto: um salão de festas de 8.360 metros quadrados, com custo estimado de US$ 200 milhões (cerca de R$ 1,1, bilhão).
Mas a réplica do Salão Oval remonta ao primeiro mandato de Trump. Ela é surpreendentemente parecida com a configuração da época, com muitos objetos impressos em 3D para imitar os originais. Os livros nas prateleiras são os mesmos e estão nas mesmas posições. Os retratos, embora impressos em vez de pintados, parecem idênticos. O mesmo vale para o tapete bege da era Reagan e a estatueta “Bronco Buster” de Frederic Remington (que Biden havia removido).
“Usamos muitos dos mesmos fornecedores que trabalham na Casa Branca,” disse Boorady, mencionando os responsáveis pelo piso e pela tapeçaria dos móveis (os sofás de Trump foram usados pela primeira vez pelo presidente George W. Bush). “Na verdade, quando vieram, disseram: ‘Olha, está desalinhado em meio centímetro aqui, um quarto de centímetro ali'”.
Claro que nem tudo pode ser exatamente igual. A mesa Resolute tem apenas um telefone em vez de dois, porque os visitantes ficavam enrolando os fios. Ao contrário do Salão Oval real, não há um busto de Abraham Lincoln, pois ele bloquearia a entrada acessível da exposição.
No sábado (2), pais aguardavam na fila enquanto crianças cansadas se espalhavam nos sofás projetados para imitar aqueles onde se sentam autoridades no Salão Oval verdadeiro. Muitos visitantes estavam encantados com a oportunidade de se sentar atrás da mesa Resolute e fazer uma ligação imaginária para um líder mundial. Uma mulher elogiou com entusiasmo o recurso na mesa presidencial conhecido como botão da Coca-Cola Diet, pensando em um dia ter o seu próprio que, em vez do refrigerante, acionaria o pedido de gim com tônica.
E alguns disseram que gostariam que Trump nunca tivesse mudado a versão de seu primeiro mandato.
“Acho esta versão legal,” disse Hunter McElroy, 25, de Morgantown, Virgínia Ocidental. “Acho que é um pouco mais elegante, com um pouco menos de ouro.”
Hoang Vo, engenheiro de software que estava visitando Dallas com sua família, havia feito um tour pela Casa Branca mais cedo, mas não teve a chance de ver o Salão Oval real —por isso, ficou maravilhado com a chance de experimentar algo semelhante pessoalmente.
“É legal e muito único,” disse Vo, 55, sobre a réplica.
Outros, no entanto, não ficaram convencidos. “Eu não gosto,” disse Maria de los Angeles Sapriza, 63, que vinha do Uruguai. “Acho um pouco falso.” Seus olhos se arregalaram ao saber sobre os detalhes dourados adicionais trazidos pelo presidente, supostamente com a ajuda de seu “homem do ouro” de Mar-a-Lago.
A lacuna dourada desaparecerá no próximo ano, quando a associação planeja transformar a réplica para refletir a decoração atual do Salão Oval.
Funcionários e visitantes disseram estar animados para ver a exposição refletir a forma atual da sala. Mas isso pode ser uma tarefa difícil, dada a adição de muitos objetos dourados, apliques e outros detalhes por Trump. A Casa Branca, segundo Compton, está ajudando com a transformação, mas “está sempre mudando,” disse ela. “Eles continuam acrescentando coisas.”
“Temos que sair por aí e encontrar gente para fabricar o que não se acha pronto nas prateleiras,” acrescentou.
Mas Boorady disse que dourar a réplica não será problema.
“Não acho que o trabalho vá ser muito diferente,” afirmou. “São apenas mais objetos.”
No tempo certo, disse ele, alguém estará em uma escada adicionando enfeites dourados ao teto, e os troféus dourados que adornam a lareira não serão diferentes dos que estão do outro lado da rua, na Casa Branca.
“Queremos que os visitantes possam sentir a Casa Branca, vivenciá-la, entender sua longa história e os eventos importantes que aconteceram ali,” disse Boorady.
E quanto ao imenso salão de festas que Trump prometeu construir, a associação ainda nem começou a considerar fazer uma réplica. “Ainda não pensamos nisso,” disse Boorady.




