Menos Trump, mais mulheres indígenas – 10/08/2025 – Bianca Santana

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“Quando o povo chileno precisou de um símbolo forte de resistência, foi natural adotar a bandeira mapuche.” A resposta de Jessica Cayupi, da Red Mujeres Mapuche, à pergunta sobre apropriação cultural, muito ensinou a quem estava na reunião em Santiago, no Chile, em 2022.

Ela se referia ao fato de que a bandeira desse povo indígena surgiu como símbolo das manifestações de 2019 no país. “Se a partir de hoje, uma multinacional começar a vender bandeira mapuche para gerar lucro, será problema. Mas enquanto a resistência estiver na rua em torno desse símbolo, não”.

Em 9 de agosto, o mundo celebra o Dia Internacional dos Povos Indígenas, instituído pela ONU em 1994. A data é um chamado à urgência da defesa de direitos, territórios e modos de vida indígenas em todo o mundo. E uma oportunidade para lembrar o quanto nós não indígenas precisamos aprender com quem vive, há milhares de anos, em harmonia com a terra e os espíritos; há centenas de anos resistindo a invasões e ao extermínio físico e simbólico.

Em Brasília, entre 2 e 8 de agosto, a 4ª Marcha das Mulheres Indígenas teve como lema “Nosso corpo, nosso território: somos as guardiãs do planeta”. No dia 7, um protesto na Câmara dos Deputados, em Brasília, contribuiu para vetos parciais ao chamado PL da Devastação, anunciados pela Presidência da República no dia 8.

Na Índia, o Fórum dos Povos Indígenas de Manipur promoveu uma cerimônia na cidade de Imphal pelo direito à autodeterminação, apontado como um caminho para a segurança e a soberania alimentar.

Independentemente da data, povos indígenas de todo o mundo nos mostram como a defesa dos territórios de quem preserva a biodiversidade é fundamental para a continuidade da vida humana na Terra.

Os conhecimentos e modos de vida indígenas, quilombolas e ribeirinhos são o que sustentam as florestas de pé. Não se trata apenas de solidariedade: apoiar a luta indígena e proteger quem está na linha de frente é um caminho para nossa sobrevivência.

Meses antes da COP30, é preciso reafirmar que a distância entre declarações internacionais e a realidade vivida nos territórios precisa diminuir. Garantir participação indígena, quilombola e de movimentos sociais é aumentar a chance de declarações e acordos que estejam à altura dos desafios atuais. Estruturar políticas públicas que implementem, de fato, as recomendações e acordos, assim como vetar a devastação, não pode mais ser uma escolha de um governante ou outro. É um imperativo.

Jessica Cayupi, liderança mapuche que ensinou a um grupo de brasileiras e brasileiros do movimento negro que não havia problema em jovens chilenos utilizarem a bandeira de seu povo para resistir ao autoritarismo, também nos mostrou que resistência e cuidado não são opostos. Plantar, tecer, curar, legislar, cantar, negociar, bloquear estradas, monitorar invasões, fazer denúncias internacionais são ações que se entrelaçam numa prática política enraizada na terra.

A política enraizada, menos predatória e mais solidária, compartilha símbolos, recursos e poder, em vez de concentrá-los. Não se trata de utopia distante, mas de realidades concretas que vivenciam, diariamente, o outro mundo possível. Em vez de tanto Trump e Bolsonaros no noticiário internacional, que tal propagar vozes, ações e símbolos de quem constrói, hoje, um mundo para todas as pessoas, não apenas para alguns? Aprender com quem nunca se desconectou da terra é nosso futuro possível.


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