Qual é o símbolo máximo de status de luxo? Antigamente podia ser ostentar uma bolsa rara, um carro esportivo ou um relógio chamativo.
Mas, com o aumento do custo de vida e a redução do tamanho das famílias, um futuro global incerto e uma retórica pró-natalista barulhenta, talvez a maior demonstração de riqueza nas economias desenvolvidas em 2025 seja algo antes considerado uma parte natural da vida humana: ter filhos —especificamente, muitos e muitos deles.
“Para a maioria dos pais que trabalham, especialmente os que vivem em cidades, ter até mesmo um filho de forma confortável é um grande cálculo econômico que exige considerável estabilidade financeira”, diz Eliza Filby, autora do livro “Inheritocracy: It’s Time to Talk About the Bank of Mum and Dad” (Heredocracia: É hora de falar sobre o banco da mamãe e do papai, em tradução livre).
Embora isso também fosse verdade historicamente —quando ter uma prole numerosa era sustentado pela necessidade de mão de obra, por imperativos religiosos e pela preservação de legados familiares diante da alta mortalidade infantil—, hoje as crianças não são fonte de fluxo positivo de caixa doméstico. Elas são um dreno.
“A realidade é que os pais de classe média não sustentam os filhos só até os 18 anos”, diz Filby. “Para as famílias que podem bancar, isso geralmente vai até os 30.”
Com creches caras, falta de sistemas de apoio familiar e uma tendência global de mulheres engravidarem mais tarde, há a sensação de que “um filho está se tornando cada vez mais a norma em lares de dupla renda”, diz Filby. “Dois já é um esforço, e três ou mais não são apenas uma anomalia —você precisa ser super-rico.”
As taxas oficiais de natalidade em muitos países atingiram mínimas históricas: no Reino Unido, o Escritório Nacional de Estatísticas aponta taxa de fertilidade de 1,44 filho por mulher; nos EUA, 1,6. Em alguns países asiáticos, como Japão e Coreia do Sul, os índices são 1,2 e 0,75, respectivamente.
Mas, enquanto o “um e pronto” cresce como pilar da cultura parental de classe média, também cresce a fetichização da outra ponta do espectro. Em outras palavras, a fascinação por figuras extremamente ricas em evidência pública, cujas famílias de aparência perfeita parecem nunca parar de crescer.
Surge a fixação de mulheres millennials sobrecarregadas (e outras) pelo movimento “trad wife” (esposa tradicional), fenômeno das redes sociais que glorifica o lar, o papel da esposa e o cuidado com marido e filhos. Sua estrela mais brilhante, Hannah Neeleman, da Ballerina Farm, atraiu 10 milhões de seguidores no Instagram, em boa parte graças a seus oito filhos loiros “desalinhados impecáveis” com o marido Daniel Neeleman, filho do fundador da JetBlue e magnata da aviação David Neeleman.
No universo das celebridades —além das agruras do clã Kardashian sempre em expansão— Alec e Hilaria Baldwin enlouqueceram a internet neste ano com a série de TV The Baldwins, no canal TLC, que mostra a vida entre seu apartamento em Manhattan e a mansão em East Hampton com seus sete filhos (e oito animais de estimação).
Famílias enormes estão cada vez mais visíveis entre o 1% mais rico, especialmente em alguns dos enclaves mais competitivos e abastados do mundo, como Nova York. Em seu livro polêmico e amplamente lido “Primatas da Park Avenue”, Wednesday Martin observa de forma memorável: “Famílias enormes —elas estavam em toda parte” no Upper East Side, bairro com alguns dos imóveis, escolas, babás e hobbies mais caros dos EUA.
“Quatro é o novo três —antes parava uma conversa, agora não é nada incomum”, ela escreve. “Cinco já não é mais loucura ou religiosidade —só significa que você é rico. E seis é aparentemente o novo sobrado —ou jato Gulfstream.”
Segundo um estudo da Forbes com mais de 700 bilionários americanos, pelo menos 22 têm sete ou mais filhos (muitas vezes de múltiplos casamentos ou adoções), incluindo, talvez o mais famoso, Elon Musk. Regularmente apontado como o homem mais rico do mundo, Musk se tornou garoto-propaganda da procriação bilionária (tem 14 filhos conhecidos) e defensor vocal do pró-natalismo, que ele vê como vital para a sobrevivência da humanidade diante da queda nas taxas de natalidade.
A fascinação com a elite ultrarrica, seu estilo de vida e forma de administrar lares não é novidade. Diversas marcas de moda e consumo de alto padrão passaram a incorporar noções de parentalidade com recursos quase ilimitados em seus produtos e campanhas. A Artipoppe, por exemplo, oferece carregadores de bebê de veludo e cashmere por US$ 800 (R$ 4.320), chamados de “Birkin dos acessórios maternos”, transformando o ato de carregar um bebê em um item de luxo.
Coleções mini de grife e tênis de US$ 600 (R$ 3.240) permitem que legiões de filhos se vistam como os pais —e uns como os outros. E, enquanto marcas como Patek Philippe e Dolce & Gabbana há tempos colocam visões glamorizadas de família no centro de suas campanhas, iniciativas mais recentes de Bottega Veneta e Burberry sugerem a ideia da parentalidade moderna como uma performance cultural estilizada que, segundo o estrategista de marcas Eugene Healey, sinaliza uma maturidade de gostos e preferências.
Healey acredita que essas campanhas surgem em um momento em que a indústria do luxo luta para manter relevância cultural, refletida na queda da demanda por produtos como símbolos sociais e na retração das vendas globais. Focar na família reflete uma tentativa de migrar para o campo dos comportamentos e valores, afastando-se das coisas físicas.
“Você não pode falsificar ter uma família”, diz Healey. “É um compromisso de muito longo prazo, sem falar em um dos mais significativos e transformadores que você pode fazer na vida.”
Mas não é apenas ter filhos que é venerado pelas marcas e exaltado como símbolo de status. É sobre como você tem filhos e em que medida consegue manter seu estilo de vida pré-parental. Para muitas celebridades, isso significa um exército de apoio doméstico: diz-se que Kim Kardashian tem dez babás em revezamento 24/7 para seus quatro filhos, enquanto os Baldwin contam com duas na equipe. Esses cargos nos EUA podem facilmente render salários anuais de mais de US$ 200 mil (R$ 1,08 milhão), embora o padrão seja mais próximo de US$ 85 mil (R$ 459 mil). Ainda assim, qualquer apoio pago permanece um luxo inatingível para a maioria das famílias.
“Essa versão da parentalidade não reflete a experiência da maioria das pessoas”, diz Healey. “É uma versão em que você ainda encontra amigos o tempo todo, recupera o corpo pré-bebê, aparece em baladas ou eventos noturnos sem estar sempre cansado, muda-se para os subúrbios ou veste roupas sem manchas de leite.”
A moda sempre operou nos permitindo projetar algo um pouco melhor do que somos. Mas ter uma família numerosa também envia um sinal de confiança no futuro em um momento em que ele parece cada vez mais incerto. Um grupo demográfico que talvez se sinta mais seguro do que a maioria? Os mais ricos.
Musk pinta sua visão pró-natalista em termos radicais (e com valores familiares bastante heterodoxos), mas entre a direita conservadora tradicional —cujo poder nas redes cresce e que defende famílias numerosas americanas— a questão de quem deveria ter mais filhos é desconfortável.
“Uma parcela considerável dos pró-natalistas extremamente ricos diz querer usar a reprodução para moldar uma raça humana melhor”, diz Filby. “Mas a atual fetichização da maternidade de múltiplos filhos pode reduzir a mulher a uma espécie de máquina de procriação cumprindo seu dever social e demonizar mulheres que trabalham muito e contribuem economicamente para a sociedade, mas têm poucos ou nenhum filho —seja por escolha, seja por necessidade.”
Dito isso, seguir “trad wives” ou esposas de bilionários com muitos filhos nas redes sociais não é necessariamente um retorno ao lar ou ao passado. Como em muitos objetos de desejo aspiracional, às vezes essas tendências têm raízes em um tipo de cosplay parasocial, explorando estilos de vida muito distantes —ou que nunca serão os nossos. Nem queremos que sejam.
“Grande parte da internet é consumida como se fosse uma espécie de ficção especulativa de fantasia”, diz Healey. “A família Ballerina Farm, por exemplo, representa uma visão de segurança econômica, papéis de gênero claramente definidos e certo grau de propósito. As pessoas podem interagir com isso como entretenimento ou escapismo. Mas muitas também olharão e pensarão, no mundo real —em 2025— de forma alguma eu realmente quero isso.”