Falta de transparência alimenta rumores da saúde de Trump – 03/09/2025 – Lúcia Guimarães

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Uma onda de especulações dominou as redes sociais no fim de semana do Dia do Trabalho americano a partir da sexta-feira (29). A hashtag #trumpisdead (Trump está morto) disparou em plataformas como X, quando o presidente showman passou três dias seguidos longe das câmeras. No mesmo período, o vice J. D. Vance declarou espantosamente a uma jornalista que estava pronto para assumir o poder —”se, Deus me livre, houver uma tragédia terrível.”

Quando Donald Trump reapareceu, de saída para o clube de golfe, no sábado de manhã, não acalmou a febre conspiratória. A foto, capturada à distância, inspirou rumores sobre inchaço nos olhos e no rosto. Também não ajudou a série de postagens presidenciais frenéticas na rede Truth Social que terminou com a mensagem: “Nunca me senti melhor na minha vida”, em maiúsculas, no domingo. Trump tem 79 anos e uma aversão furiosa a revelações sobre a própria saúde.

No final de 2015, já candidato, ele ditou ao seu intimidado clínico geral Harold Bornstein um atestado de saúde com floreios absurdos como: se for eleito, será, “sem sombra de dúvidas, o sujeito mais saudável” a ocupar a Presidência dos Estados Unidos. O mesmo Bornstein revelou que, dias antes da primeira posse de Trump, em 2017, o guarda-costas do republicano, Keith Schiller, invadiu seu consultório e retirou à força todo o arquivo médico de Trump.

Esta falta de transparência é o combustível ideal para rumores no ambiente digital de notícias distorcidas por algoritmos. No começo do ano, a mancha roxa na mão direita do presidente, mal ocultada com maquiagem, foi explicada comicamente como resultado do excesso de apertos de mão. A mancha tem aparecido mais evidente e, no mês passado, outra foi vista na mão esquerda de Trump —que não é canhoto. Não vou perder tempo especulando porque qualquer um pode pesquisar os motivos comuns para manchas roxas nas mãos. Seja qual for a explicação real, não é boa notícia.

Numa entrevista coletiva na terça-feira (2), um repórter perguntou ao presidente se ele tinha acompanhado os rumores de sua suposta morte. Ele negou, em seguida se contradisse e voltou a usar um mote favorito: devem ter sido “geradas por inteligência artificial.” O que ele não pode esconder é o forte inchaço nos tornozelos, que afinal foi explicado laconicamente por seu médico como causado por “insuficiência venosa crônica”. Também não é boa notícia, seja qual for o quadro clínico real.

A escassez de franqueza tem provocado comparações com a kreminologia praticada na União Soviética, especialmente na era deliciosamente satirizada no filme “A Morte de Stálin”, de Armando Iannucci, o criador da série “Veep.”

Na anedota atribuída a um espião ocidental estacionado em Moscou, ele observava diariamente um cidadão russo comprar um jornal impresso e jogar o exemplar na lixeira, mal passando os olhos na primeira página. O espião perguntou se ele nunca achava nada importante para ler, e o homem retrucou: “Eu só compro o jornal para saber o que não está na capa,” ou seja, o anúncio da morte do longamente enfermo premiê Yuri Andropov.

Mas esta kreminologia diante de manobras de desvio de informação oficial não seria possível sem a cumplicidade da acanhada imprensa dos EUA, que não informou o público dos sinais de mal de Alzheimer de Ronald Reagan nem do declínio da saúde de Joe Biden.


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