Cientistas anunciavam a vacina para a gripe, o Brasil debatia um sistema de vigilância para a Amazônia e o mundo pedia o cessar-fogo na Bósnia. Foi nesse contexto que as brasileiras partiram para a capital chinesa, rumo à IV Conferência Mundial Sobre a Mulher da ONU. Talvez fôssemos 300, porém, o número é incerto. Desembarcamos numa pólis convulsionada por grandes obras, milhões de bicicletas e um mulherio de todas as partes arrastando malas. Foi há 30 anos.
Nunca o multilateralismo gerou algo tão potente e criativo como esta conferência, realizada no início de setembro de 1995, em Pequim. Com duas programações, a oficial e a paralela, ela mobilizou 17 mil pessoas, incluindo 5.000 delegados, fora um universo flutuante de 30 mil pessoas, segundo a ONU. Gerou uma plataforma de ação assinada por 189 países, ainda hoje um marco na construção da igualdade de gênero. E foi a quarta conferência dedicada às mulheres, antecedida pela do México, em 1975, a de Copenhague, em 1980, a de Nairobi, em 1985. Jamais se convocou a quinta.
O Brasil tinha Fernando Henrique Cardoso (PSDB) na Presidência, mas não um ministério da mulher na Esplanada, algo que viria com Lula (PT). Houve discurso em Pequim da então primeira-dama, Ruth Cardoso, chefe da delegação do país ao lado de Rosiska Darcy de Oliveira, presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher.
E houve o imenso bloco brasileiro puxado por lideranças feministas, parlamentares como Marta Suplicy e Benedita da Silva, juristas, acadêmicas, comunicadoras, mulheres das organizações de base, fossem elas sindicalistas, trabalhadoras rurais, indígenas ou quilombolas. Na tenda no fórum paralelo, a sociedade civil brasileira explodia em ideias e conexões.
Nossa participação na IV Conferência encerra uma bela história. Ao se livrar da ditadura, o movimento de mulheres renovou suas energias no processo de redemocratização. Articulou-se com grupos na América Latina, tornando-se uma voz de peso nas conferências globais.
Não por acaso, a presença brasileira em Pequim foi monitorada pelo governo chinês, acuado que estava com as críticas internacionais ao seu programa de filho único. As negociadoras brasileiras não arredaram pé diante do Vaticano de João Paulo 2º, cobrando que os documentos finais do encontro incluíssem os direitos sexuais e reprodutivos.
A meu juízo, a plataforma de ação, cujo compromisso de implementação foi assumido pelos signatários da “Declaração de Pequim”, deu um salto ao cravar a expressão “empoderamento feminino”. Uma ousadia. Afirmou que as mulheres não querem só igualdade, mas poder. Isso mudou o debate sobre a feminização da pobreza. Já em matéria de abusos e violações, outro avanço. Em 1995, havia 12 leis no mundo contra a violência de gênero. Hoje, são 1583. A Lei Maria da Penha, nesse sentido, é uma filha pródiga da Declaração de Pequim.
Poderíamos perguntar: passados 30 anos, o que fazer com o feminicídio no Brasil? Ou com a explosão da misoginia online? Citando o historiador britânico Tony Judt (1948-2010), não é hora para despedidas precipitadas do passado. Quando os fundamentalistas de hoje pregam a “redomesticação” da mulher –há no governo de Trump quem até questione o voto feminino– , a plataforma de ação da IV Conferência se apresenta para ser celebrada e utilizada. Feliz aniversário, minha cara.




