Portugal: Operadora diminuiu vistorias de bondinho – 05/09/2025 – Mundo

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A inspeção visual ao cabo do Elevador da Glória, feita numa vistoria diária e que no dia do acidente decorreu das 9h13 às 9h46, assegurava que este estava em perfeitas condições.

Até porque restava ainda 263 dias de uso ao cabo, que deve ser trocado a cada 600 dias. O manual de procedimentos exige que essa inspeção seja feita na fossa do elevador ao longo de uma viagem completa e que, caso se detectem fios partidos, é necessário mandar parar de imediato os veículos.

O OK dado a esse item do manual de procedimentos —que inclui nove itens de verificação diária—, caso não se perceba alguma falha na vistoria, deixa em aberto a possibilidade de que o cabo não tenha se partido, mas, sim, que se tenha desprendido de um dos veículos, devido, possivelmente, a alguma falha na fixação. Uma situação que, caso seja confirmada, explica que a causa do acidente não tenha sido detectada porque estaríamos perante uma peça não inspecionável.

Com total confiança nas inspeções feitas pela empresa terceirizada Main que, desde 2019 assegurava a manutenção dos bondinhos de Lisboa, o presidente da empresa de transporte Carris, Pedro de Brito Bogas, evitou na quinta-feira (4) tirar conclusões precipitadas sobre as conclusões do incidente.

Uma nota do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários deverá ser divulgada neste sábado (6), e o relatório preliminar deverá ficar pronto em 45 dias. Não será mais rápido porque esse gabinete tem apenas um funcionário em todo o país para investigar acidentes ferroviários.

Até 2007, o trabalho de manutenção dos veículos da cidade de Lisboa era feito exclusivamente pela Carris, que dispunha de uma equipe de 24 homens dedicados à manutenção dos bondinhos e elevadores da Glória, do Lavra, da Bica e de Santa Justa. Por estranho que pareça hoje, essa atividade durava 24 horas por dia com dois operários em turnos de oito horas. Ou seja, havia sempre duas pessoas que tratavam da manutenção e do bom funcionamento dos equipamentos. Além dos guarda-freios, claro.

O que faziam duas pessoas em cada um dos turnos? Uma das tarefas diárias consistia na verificação dos cabos com o seguinte método: um operário colocava luvas e deixava o cabo deslizar entre as mãos, prestando atenção em possíveis fios soltos. Se houvesse três ocorrências dessas em um metro de cabo, a ordem era determinar a interrupção do veículo. Atualmente o cabo é substituído a cada 600 dias, e a próxima troca estava prevista para o mês de maio do ano que vem.

A terceirização da atividade de manutenção, atribuída por concurso público tendo como único critério o preço mais baixo, diminuiu de 24 para 6 o número de pessoas responsáveis por esse trabalho. E, em vez de dois operários em todos os momentos, passou-se para vistorias diárias que, no caso do dia do acidente, durou 33 minutos.

Na inspecção diária, o técnico de manutenção deve descer ao fosso e observar o cabo durante uma viagem completa, permitindo a observação da totalidade do item. Caso haja fios do cabo de aço quebrados, “o sistema do elevador tem de parar de imediato” por razões de segurança.

O jornal português Público apurou que, entre os funcionários da Carris que lidavam com o Elevador da Glória, havia a ideia de que este não funcionava de modo perfeito. Pequenos indícios, só perceptíveis por quem conhece o material, indiciavam que havia problemas de sobrecarga. Um desses sintomas é que as cabinas balançavam mais do que antigamente e havia um chocalhar no funcionamento do bondinho.

Os guardas-freios queixavam-se de folgas no cabo, tendo havido até um incidente, há alguns meses, em que o bondinho que chegava ao topo chegou a bater nos degraus de acesso à rua da Misericórdia.

Neste caso, o guarda-freio, ao se aproximar do final da subida, fez o procedimento normal, que é cortar a corrente e aplicar o freio pneumático para travar o veículo. Só que, apesar do freio ter funcionado, o veículo continuou subindo e, mesmo depois de o guarda-freio ter também desligado a corrente como medida de emergência, a carruagem não parou e bateu nos degraus, embora sem violência.

O Público teve acesso ao caderno de encargos elaborado pela Carris em que fica claro que “os bondinhos do Lavra e da Glória deverão possuir os meios necessários para garantir as suas normais condições de funcionamento, sem que para tal seja necessária a presença permanente de pessoal responsável pela manutenção”.

Especificamente para os bondinhos da Glória e da Lavra, deverá ser garantido um tempo de resposta “para situações de emergência, igual ou inferior a 15 minutos, contados a partir da comunicação da ocorrência até o comparecimento de técnicos da manutenção no local da avaria”. Acima desse tempo eram aplicadas multas no valor de € 200 a cada 15 minutos.

Durante décadas o Elevador da Glória destinou-se a satisfazer a mobilidade dos lisboetas. Este era mais um modo de transporte, na cidade, destinado a facilitar o acesso a uma das colinas de Lisboa, com uma hora de pico de manhã e outra à tarde. Hoje aquele equipamento tem uma hora de pico permanente, sujeito a uma utilização muito mais intensa e com um número recorde de passageiros transportados.

Para um sistema que foi implementado nos anos 20 do século 20 (o bondinho data de 1885, mas funcionava então com uma máquina a vapor que movia os cabos), que funciona exclusivamente com meios mecânicos, só uma manutenção cuidadosa permite que este funcione, cem anos depois, em condições de segurança.

Além da sobrecarga a que o Elevador da Glória esteve sujeito, não é indiferente, também, o comportamento dessa carga. Carlos Neves, presidente do Colégio de Mecânica da Ordem dos Engenheiros, diz que a utilização muito intensa de um equipamento recomenda que se alterem os parâmetros do caderno de encargos de manutenção, adaptando-a à nova realidade.

Nos bondinhos, a própria dinâmica das cargas pode também provocar um aumento da fadiga dos materiais e, logo, a exigências maiores de manutenção. E, neste caso, as “cargas dinâmicas” são pessoas. Passageiros que há décadas eram pacatos lisboetas que aproveitavam os breves minutos de viagem para ler calmamente o jornal e hoje são grupos de entusiásticos turistas em constante movimento, que tiram fotografias, por vezes pendurados nas janelas.

Várias autoridades consultadas pelo Público alertam para a perda de conhecimento técnico, não só na Carris como noutras empresas públicas, à medida que os trabalhadores mais velhos se aposentam sem serem substituídos por novos quadros porque se optou pelo “outsourcing”. Esse conhecimento técnico, partilhado por engenheiros e operários, era obtido e consolidado com sucessivas gerações de pessoal que pertencia ao quadro e tinham carreiras estáveis nas empresas.

Além do “know how” propriamente dito, havia o conhecimento empírico, traduzido, por exemplo, em expressões como “manhas da máquina” ou “cantar diferente” quando se referiam ao funcionamento dos equipamentos. Algo que se perde quando a atividade passa a ser feita por empresas que prestam serviços em contratos de três ou quatro anos.

Carlos Neves diz que a terceirização da manutenção, por si só, não é um problema, desde que haja uma transferência de competências para a empresa subcontratada, podendo os próprios cadernos de encargos contemplar a possibilidade de trabalhadores da empresa concedente colaborarem com a concessionária.

Em 2018 o Elevador da Glória já tinha sofrido um descarrilamento do qual pouco se falou porque não se registraram vítimas. Mas as rodas, que ficaram bem à vista, mostraram uma grosseira falha na manutenção porque estavam praticamente lisas e sem verdugo.

O verdugo é a saliência lateral da roda que permite o guiamento pelo carril para evitar o descarrilamento. Por isso os rodados devem ser torneados periodicamente, o que não tinha acontecido quando se deu o descarrilamento há oito anos.

A Carris não respondeu ao Público sobre quando tinham sido torneados os bondinhos da Glória, do Lavra e da Bica. E a própria Câmara de Lisboa, à época liderada por Fernando Medina, questionada sobre se tinha conhecimento deste descarrilamento e se havia alguma preocupação sobre a segurança dos passageiros nos bondinhos da cidade, não respondeu.



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