“Estou muito preocupado.” Para Thibaut Bruttin, diretor-geral da ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF), o jornalismo vive “um momento de inflexão”, no qual as crises de diferentes áreas têm sido instrumentalizadas contra a profissão.
As ameaças ao jornalismo citadas por Bruttin em entrevista à Folha vão das mortes de mais de 200 repórteres nos bombardeios israelenses em Gaza aos ataques à democracia, passando pelo uso indevido de conteúdos jornalísticos pelas plataformas de inteligência artificial.
Sobre esta última questão, o diretor da RSF disse apoiar a ação judicial da Folha contra a OpenAI, por concorrência desleal e violação de direitos autorais.
“O Brasil tem um papel fundamental a desempenhar no futuro do jornalismo”, disse Bruttin, citando outras questões relacionadas ao país, acompanhadas pela RSF: o julgamento de Jair Bolsonaro e outros réus no Supremo Tribunal Federal; os riscos que correm os jornalistas na Amazônia, tema que a entidade pretende levar à COP30, em novembro, em Belém; o debate sobre a regulamentação das redes sociais; e até mesmo o impacto econômico do tarifaço de Donald Trump sobre a imprensa.
O momento atual, com ameaças ao jornalismo em várias frentes, é o pior da história da imprensa?
É sempre perigoso ser definitivo quando se olha para a trajetória histórica. Desde o fim das duas guerras mundiais houve avanços notáveis na proteção dos jornalistas. Em 2015, o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma resolução que relembrava o papel das Forças Armadas na proteção dos jornalistas em períodos de conflito. Cada vez menos jornalistas morriam. Tudo isso fazia pensar que estávamos caminhando para melhor. Agora, com Gaza, vemos que a guerra está voltando a ser causa de mortalidade [de jornalistas]. Práticas que imaginávamos pertencer ao passado estão voltando. Estou muito preocupado.
Vemos também que o governo Trump está tentando impor aos outros países do mundo um projeto de sociedade em que a liberdade de expressão seria mais importante do que a liberdade de imprensa, sem levar em conta a necessidade de haver opiniões e haver fatos. Estamos em um momento de inflexão, em que todas as crises –econômica, de confiança, política e tecnológica– afetam o jornalismo e estão sendo instrumentalizadas. Precisamos estar muito atentos e mobilizados, porque podemos entrar em um período de forte declínio.
A Repórteres Sem Fronteiras publicou um anúncio recente em centenas de meios de comunicação no mundo inteiro denunciando a situação em Gaza. Qual foi o objetivo?
O slogan era simples: “Ao ritmo em que os jornalistas palestinos estão sendo mortos, em breve não haverá mais ninguém para informá-los sobre Gaza”. Temos três exigências muito simples: primeiro, fim dos crimes cometidos contra jornalistas, dos ataques direcionados, da impunidade. Segundo, a evacuação dos jornalistas que solicitarem. E por fim, o que é muito importante, a abertura da Faixa de Gaza. Não são exigências políticas, que requeiram um compromisso especial ou prejudiquem a liberdade editorial.
No momento, há uma espécie de apagão noticioso de Israel nessa região. Porém, Israel argumenta que os jornalistas palestinos mortos tinham ligação com o terrorismo. Seria necessário abrir a Faixa de Gaza à imprensa internacional, mas Israel se recusa. Seria necessário reconhecer a qualidade profissional dos jornalistas palestinos, que as Forças Armadas israelenses procuram desacreditar constantemente, quando, na verdade, alguns deles mantêm laços históricos com meios de comunicação reconhecidos pela sua confiabilidade. A responsabilidade, hoje, está essencialmente no jogo perigoso do governo de Netanyahu, impondo um bloqueio. Isso cria um precedente e pode levar a um grande retrocesso na proteção dos jornalistas. O conflito na Ucrânia mostra que é possível uma cobertura relativamente livre.
Jornalistas estão a bordo da flotilha pró-Palestina que zarpou de Barcelona rumo a Gaza com a intenção anunciada de levar ajuda humanitária. Como a RSF está acompanhando essa iniciativa?
Como nas flotilhas anteriores, acreditamos que seja importante preservar a segurança dos jornalistas, distinguindo-os dos ativistas. Os jornalistas devem ser tratados como jornalistas pelas Forças Armadas israelenses, em caso de abordagem. Também é importante que os organizadores compreendam a especificidade da imprensa: que não estão lá para fazer propaganda a serviço de uma causa, mas sim para contar o que está acontecendo de forma independente.
A Folha decidiu processar a OpenAI, plataforma de inteligência artificial. A RSF apoia iniciativas como essa?
Sim, é uma ótima maneira de lembrar responsabilidades. Uma batalha judicial é uma forma de estabelecer onde se situa o direito. As plataformas tecnológicas se organizaram para ter o mínimo de responsabilidade e o máximo de dinheiro. Esta semana, em parceria com a ONG Fórum sobre Informação e Democracia, publicamos um estudo sobre a necessidade de tributar as plataformas para financiar o jornalismo, seguindo a lógica do poluidor-pagador. Somos totalmente a favor desse tipo de ação jurídica, como a da Folha. É fundamental que a Justiça se pronuncie com clareza sobre esses assuntos.
O Brasil está em evidência devido ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e de outros réus. Do ponto de vista da liberdade de imprensa, a Repórteres Sem Fronteiras está acompanhando o caso?Bolsonaro é um indivíduo, é claro, mas também é um sistema. Durante seu mandato como presidente, a Repórteres sem Fronteiras foi uma das organizações sobre as quais teriam sido coletadas informações, em um escândalo de espionagem. Bolsonaro tentou apresentar os jornalistas como inimigos do povo. Agora é preciso estabelecer até que ponto Bolsonaro é inimigo da democracia e de um de seus componentes específicos, que é o jornalismo.
A RSF estará presente na COP30, em novembro, em Belém. O que mais preocupa a entidade em relação à questão ambiental?
Há duas questões relacionadas à COP30 para nós. Há a desinformação climática, tema que também é muito importante e que, eu sei, está realmente entre as prioridades da organização brasileira da COP. Nas redes sociais, há uma necessidade de regulamentação para evitar que o debate público seja sequestrado por discursos que negam a ciência e negam a realidade. E há a segurança dos jornalistas. O ranking mundial da liberdade de imprensa coincide amplamente com a geografia dos países que têm atividades de mineração, extração de petróleo ou gás e grandes empresas de desmatamento. Isso leva, como vimos no Brasil, a assassinatos tão chocantes quanto os de Bruno Pereira e Dom Phillips. Estamos interessados em aproveitar este momento da COP para dizer isso claramente ao Brasil e a outros países, como a Índia, com problemas muito semelhantes.




