Katmandu amanheceu deserta na manhã desta quarta-feira (10), após dois dias de intensas manifestações que resultaram na queda do primeiro-ministro nepalês, K. P. Sharma Oli.
A situação atual, com ninguém mais do que militares e poucos comerciantes nas ruas, contrasta com o que foi o dia de ontem na capital do Nepal, quando manifestantes atearam fogo no Parlamento e em casas de membros do governo –mesmo após a renúncia do então líder político do país.
Nesta manhã –ainda madrugada no Brasil–, soldados guardam o que restou do prédio do Parlamento do Nepal, enquanto a capital vive um novo toque de recolher, previsto para durar ao menos até esta quinta-feira (11). A onda de manifestações resultou, até terça, em 22 mortes e mais de 200 feridos em confrontos policiais.
Veículos queimados e objetos de metal espalhados pelas ruas formavam o cenário na região ao redor do Parlamento, segundo registros da agência Reuters. Bombeiros ainda trabalhavam para eliminar focos de incêndio no interior do prédio.
O cenário de terra arrasada flerta com a situação política do país, cujos rumos começam a ser definidos nas próximas horas.
Em um apelo no X –antigo Twitter–, o exército do país declarou que as partes relevantes estão se organizando para lidar com a situação após os protestos e resolver o problema.
A imprensa local informou que preparativos estão sendo feitos para uma reunião entre manifestantes e autoridades. Há, contudo, poucos detalhes sobre essa quando e como isso deve acontecer.
Balaram K.C., ex-juiz da Suprema Corte, pediu aos manifestantes para que formassem uma equipe de negociação, com as forças armadas ajudando a manter a ordem durante as negociações. O mais provável, segundo projeta, é que novas eleições sejam convocadas.
Um especialista em constituição daquele país, consultado pela Reuters, avalia que o parlamento deve ser dissolvido, e que autoridades e manifestantes passem a discutir a formação de um novo governo interino.
O gabinete de segurança da Índia também se reuniu nesta terça para discutir a situação no país vizinho.
“A estabilidade, a paz e a prosperidade do Nepal são de extrema importância”, disse o Primeiro-Ministro Narendra Modi em uma publicação no X posteriormente. “Apelo humildemente a todos os meus irmãos e irmãs no Nepal para que mantenham a paz e a ordem.”
A pior revolta em décadas no Nepal foi desencadeada após a proibição de 26 redes sociais no país, incluindo Facebook e Youtube.
A crise teve início com a divulgação de vídeos virais nas redes contra os “nepo babies” da elite do país, filhos de políticos que ostentam vida luxuosa na internet e cujos pais são acusados de corrupção.
A proibição às redes serviu de estopim para as manifestações, e nem a renúncia de Oli foi o bastante para acalmar os manifestantes, que agora fazem novas exigências —como o fim da corrupção e mais empregos para jovens.
Durante anos, a falta de empregos levou milhões de pessoas a procurar trabalho em lugares como Malásia, Oriente Médio e Coreia do Sul, principalmente em canteiros de obras, para poder enviar dinheiro para casa.
Encravado entre a Índia e a China, o Nepal tem lutado contra a instabilidade política e econômica desde que os protestos levaram à abolição de sua monarquia em 2008.




