O Ministério Público de Milão, na Itália, abriu uma investigação para apurar a participação de italianos em uma espécie de “safári humano” que teria ocorrido nos anos 1990 em Sarajevo, na Bósnia e Herzegovina. A suspeita é que italianos, além de outros europeus, tenham pagado para viajar até a capital do país dos Bálcãs e poder atirar, posicionados como snipers, em outros civis durante a Guerra da Bósnia.
Segundo a Promotoria, os “turistas de guerra” italianos não tinham ligação com forças armadas. Eram homens interessados em armas e caça que pagavam funcionários e paramilitares sérvios, entre € 80 mil e € 100 mil (em valores atuais), para um fim de semana em Sarajevo com a finalidade de atirar em pessoas por diversão. O crime investigado é de homicídio doloso agravado por crueldade e motivo torpe.
Entre 1992 e 1995, a Bósnia e Herzegovina viveu um brutal conflito armado que deixou cerca de 100 mil mortos. A guerra, de origem étnica após a dissolução da Iugoslávia, envolveu bósnios muçulmanos, sérvios e croatas.
Segundo o jornal italiano la Repubblica, primeiro a revelar a investigação nesta semana, o promotor Alessandro Gobbis pretende identificar os cidadãos do país que teriam participado do esquema. O processo está prestes a entrar na fase de ouvir testemunhas.
Uma delas é um ex-militar bósnio que viu relatos de soldados sérvios sobre o transporte de homens que partiam na sexta-feira de avião de Trieste, no leste italiano, rumo a Belgrado, capital da Sérvia, e de lá até as colinas de Sarajevo, onde podiam mirar em pessoas comuns.
A lista de testemunhas inclui vítimas sobreviventes, familiares de crianças mortas e funcionários de serviços secretos de países europeus. Também podem ser ouvidos um ex-bombeiro que, no processo contra o ex-presidente da Sérvia, Slobodan Milosevic, mencionou os “turistas de guerra” e o diretor esloveno Miran Zupanic, autor do documentário “Sarajevo Safari”, de 2022, que trata do tema.
A ex-prefeita de Sarajevo Benjamina Karic disse, nesta terça (11), estar disposta a colaborar com as autoridades italianas. Em 2022, ela apresentou uma queixa-crime em seu país sobre o caso.
Durante a guerra civil, uma área de Sarajevo ficou conhecida como “beco dos atiradores”. Isso porque atiradores de elite da Sérvia, posicionados em colinas ou prédios altos, atiravam em cidadãos que passavam por ruas como Mesa Selimovic e Zmaja od Bosne. Seriam para esses lugares que eram levados os “turistas de guerra”.
A investigação do Ministério Público de Milão teve origem em uma denúncia apresentada pelo escritor italiano Ezio Gavazzeni, que recolheu relatos e possíveis provas sobre o caso. Ao la Repubblica ele afirmou que empresários e homens conhecidos estão entre os italianos que podem se tornar réus no processo. O caso, disse, “revela uma parte da sociedade que esconde a sua verdade sob o tapete, que vive de aparência”.




