Venezuelanos fazem planos para caso de invasão dos EUA – 07/12/2025 – Mundo

Venezuelanos fazem planos para caso de invasão dos EUA -


Em uma assembleia às portas de um edifício em Caracas, os moradores discutem quais passos tomar caso ocorra um evento que mude o futuro político da Venezuela. Há ceticismo entre a população sobre uma possível invasão, mas há quem afirme que a saída de Nicolás Maduro, de qualquer forma, é iminente —desde agosto, navios e aviões militares dos Estados Unidos encontram-se no Caribe para pressionar Maduro.

“Isso já caiu”, diz o eletricista Salvador Costero, 37. Ele e seus vizinhos planejam continuar essas reuniões e até mesmo “instalar um tribunal móvel” no bairro como forma de manter a ordem e evitar tumultos durante um possível conflito armado. “Não devemos nos adiantar tanto, mas temos que estar preparados”, afirmou ele, pai de três crianças.

Costero vive em uma das zonas populares a oeste da capital considerada “opositora”, onde os habitantes não hesitam em desafiar as autoridades, que mantêm uma forte repressão desde as eleições presidenciais de 28 de julho de 2024.

Após o pleito, houve protestos contra Maduro, acusado de haver cometido fraude e negado a vitória de Edmundo González. Organizações de direitos humanos, como a ONG Foro Penal, relataram 1.848 detenções antes e depois do pleito, e mais de 900 pessoas continuam atrás das grades.

A possibilidade de um confronto armado e o chamado de Maduro aos venezuelanos para se juntarem à milícia, um corpo voluntário de civis treinados e armados para a defesa do país, preocupam parte da população. Alguns temem consequências semelhantes ao chamado Caracazo, um levante popular ocorrido em 1989 que deixou centenas de mortos, saques, destruição e uma prolongada escassez de produtos.

O presidente do principal sindicato dos estabelecimentos alimentícios, como supermercados (Ansa), Italo Atencio, afirmou que a presença de consumidores em mercados e locais do tipo nos últimos meses aumentou para cerca de três vezes por semana, quando antes ocorria em média a cada quinze dias.

A persistente inflação, no entanto, impede que os venezuelanos possam fazer grandes compras e contar com um amplo estoque caso não possam sair às ruas.

Rumores e informações não verificadas inundam o país. “A situação está piorando, já há chineses aqui nas Forças Armadas, o que vem por aí é algo muito feio. Temos que nos cuidar e não ir às zonas onde possam atacar. Sempre peço aos meus filhos que tentem trabalhar de casa, mas às vezes não podem”, disse Nora Sotillo, 86, em referência a boatos sobre a presença de forças de Pequim no país.

Simpatizantes do oficialismo, por outro lado, afirmam que “defenderão a pátria” e Maduro por ele ser um “homem que só quer paz“. O Palácio de Miraflores convocou na última segunda-feira (1º) uma grande mobilização em Caracas, à qual compareceram milhares de pessoas, muitas delas funcionários públicos.

“Este é um país democrático, estamos dispostos ao diálogo, à paz. Os Estados Unidos devem respeitar os direitos nacionais e internacionais, devem respeitar os territórios. Queremos nos organizar e confirmar o poder comunal que nos deu o presidente operário Nicolás Maduro. Além disso, não acredito que Trump se atreva a tanto e, se for assim, iremos às ruas defender este país”, diz Héctor Muñoz, 57.

Para o analista político Guillermo Tell Aveledo, parte da população tem grande expectativa sobre o futuro do país, enquanto outros são céticos e pensam que Maduro continuará no poder. Em geral, porém, a discussão sobre a crise entre Caracas e Washington é “de grande silêncio, é um tema tabu” na opinião pública, exceto pelo que informam os meios de comunicação.

“Estamos vendo uma ruptura entre as elites e a população no país. Há um grupo convencido de que o melhor é manter o status quo, talvez por medo da mudança e dos riscos que ela poderia acarretar, mas esta é uma retórica da elite [próxima ao chavismo]”, diz ele.

“Há algo muito dramático, que é a distância ampla entre a população que defende o país e a população que defende fervorosamente o governo; isso não teria sido igual nos anos anteriores da revolução bolivariana”, argumenta Tell.

Para Maduro, parece haver acabado o tempo das negociações, depois de dezenas de diálogos com mediação internacional e por ele haver descumprido vários acordos, apontam analistas políticos —embora consideram que a grande pressão internacional atual deve levar a um cenário em que o trauma seja menor. Até agora, além disso, continua sendo difícil um diálogo direto que permita uma transição de poder entre o oficialismo e a oposição liderada pela vencedora do Prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado.

Geoff Ramsey, que dirigiu o programa de Venezuela no Escritório em Washington para Assuntos Latino-Americanos (WOLA), pensa que ainda há muito acontecendo nos bastidores, e que nem Maduro nem Trump forneceram publicamente suas versões completas sobre o conteúdo da ligação que ocorreu entre eles. Ramsey afirma que, no final, tudo dependerá dessa conversa.

“Maduro acredita que desafiou os EUA muitas vezes no passado e que desta vez não é diferente. Sabe que os EUA vão além da recuperação da democracia na Venezuela e é por isso que aprofundou sua relação em matéria migratória [com os voos de repatriação] e em matéria energética, com a presença da Chevron no país. Também conta com o fato de saber que uma intervenção militar é impopular nos EUA e que muitas coisas poderiam dar errado e aprofundar o caos na Venezuela”, diz Ramsey.

O especialista afirma que, no final das contas, Trump quer “uma vitória”, e a ligação com Maduro dá sinais de que ele poderia ser mais flexível sobre o que significaria essa vitória.

Enquanto isso, o sentimento de incerteza e alerta nas ruas é acompanhado por uma relativa tranquilidade. Muitos continuam com sua rotina diária: vão ao trabalho e comparecem a eventos noturnos ou a reuniões com amigos, começam a celebrar as festas natalinas com prudência, a maioria em casa e nos escritórios. Mas, aonde vão, sempre surge o mesmo assunto: “O que vai acontecer? Se algo ocorrer, que aconteça logo —até quando isso?”



Fonte CNN BRASIL

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