O reverendo Guilherme Peixoto estava sentado para jantar na noite anterior a um show de DJ de grande destaque na Eslováquia —uma combinação de festival juvenil e celebração de aniversário do arcebispo de Kosice— quando a equipe de produção da igreja começou a se agitar de empolgação.
Eles tinham um novo ato de abertura: uma mensagem do papa Leão 14.
Peixoto, um padre e DJ de 51 anos baseado em Braga, no norte de Portugal, correu para se adaptar à novidade da véspera. Por quase duas semanas antes do evento de novembro, ele havia mergulhado em batidas de techno melódico de produtores eslovacos e selecionado hinos populares em polonês e eslovaco. Agora, precisava incorporar uma mensagem especial em vídeo do Santo Padre, enviada pelo Vaticano para surpreender o arcebispo.
“Eu disse: ‘Sim, ok, preciso trabalhar nisso para amanhã'”, lembrou Peixoto em uma entrevista por Zoom na semana passada.
Com membros de sua equipe, Peixoto trabalhou durante a noite, adicionando faixas de sintetizadores ao discurso do papa, mixando e masterizando, e acordando novamente às 3h da manhã para terminar.
Naquela noite, a névoa pairava ao redor da Catedral de Santa Isabel em Kosice, dramaticamente iluminada, enquanto a mensagem de Leão 14 era reproduzida em uma tela de vídeo com sintetizadores rodopiantes. Quando o “amém” do papa ecoou sobre a multidão, as luzes piscaram e a música cresceu.
Então Peixoto soltou a batida.
O vídeo da abertura do set viralizou, atraindo mais de 10 milhões de visualizações apenas no Instagram. A encenação foi tão dramática, a cena tão improvável —uma catedral gótica, um padre DJ, o papa— que muitos espectadores questionaram se o clipe era inteligência artificial.
Ao contrário disso, Peixoto diz que busca conexão real com seu trabalho como DJ, que ele chama de “o projeto”. Em um momento de crescente isolamento social entre os jovens do mundo, Peixoto é otimista quanto ao poder da música eletrônica para amplificar a mensagem do amor de Deus.
Festas pagam a dívida da paróquia
Peixoto sabia que queria se tornar padre muito antes de começar a agitar multidões com samples de “Ave Maria” e da música tema de Super Mario e balançar ao som de house music ao lado de acólitos usando óculos escuros.
Mas ele também gostava da vida noturna, frequentando na juventude cenas underground de house e techno de artistas como Carl Cox, DJ de house britânico, e Jeff “The Wizard” Mills, produtor de techno de Detroit. No seminário, Peixoto continuou a visitar clubes e a tocar em uma banda com outros seminaristas, todos convencidos de que abandonariam a música depois de ordenados.
Peixoto iniciou a vida sacerdotal em 2001, em Póvoa de Varzim, uma cidade litorânea portuguesa a cerca de 30 km ao norte do Porto. Seu bispo logo pediu que ele assumisse outra igreja próxima, que enfrentava dívidas e precisava de reformas.
Para arrecadar dinheiro, Peixoto decidiu que a igreja deveria abrir um pequeno bar paroquial durante o verão. Logo, a igreja havia acrescentado noites de música com corais paroquiais e karaokê.
“Mas música calma, música romântica, não é boa para os negócios”, disse Peixoto. “As pessoas querem cantar, as pessoas precisam dançar para se divertir.”
Peixoto controlava a música pelo laptop, expandindo lentamente seus equipamentos e suas habilidades como DJ. Em três anos, segundo ele, a paróquia havia quitado sua dívida de cerca de US$ 29 mil (cerca de R$ 156 mil).
Perfeccionista assumido, Peixoto quis profissionalizar ainda mais seu trabalho de DJ, aprendendo a montar um set e a produzir música. Assim, já na casa dos 40 anos, matriculou-se em uma escola de DJs no Porto, onde rapidamente foi colocado à prova pelos colegas de classe —muitos deles crianças.
“Eu ficava furioso às vezes porque eles aprendiam muito mais rápido do que eu. Como é possível essas crianças mixarem tão bem?”, disse Peixoto, rindo.
Ocasionalmente, suas aulas de DJ ficavam em segundo plano devido aos deveres clericais, como quando ele precisou avisar ao professor que tinha que sair da aula.
Peixoto lembrou-se de explicar: “Alguém morreu na minha paróquia, preciso organizar o funeral.”
Música sagrada em todos os lugares
Embora um padre festeiro da cena techno seja exatamente o tipo de combinação inesperada que viraliza nas redes sociais, a Igreja Católica tem uma longa história de incorporar música secular, afirma Andrew Gill, produtor e coapresentador do podcast Rock That Doesn’t Roll: The Story of Christian Music (a história da música cristã).
Foi o esforço da Igreja nos anos 1960 para modernizar a liturgia, com o Concílio Vaticano 2º, ue levou as congregações a trocar órgãos e cantos gregorianos por hinos acompanhados de guitarra e cantados em inglês, diz Gill. Um dos filmes mais populares da época, “A Noviça Rebelde”, mostra como a música secular pode servir como veículo de louvor, afirma ele.
“Você tem uma freira simplesmente apaixonada pelo mundo e por Deus, vendo tudo como uma coisa só”, disse ele. “É uma tradição que posso ver chegando até este DJ [Peixoto].”
Por mais que tradicionalistas possam torcer o nariz para um clérigo cercado pelos elementos da vida noturna, as duas ideias não entram em conflito, afirma David Dark, professor de religião e artes na Universidade Belmont.
Se a Igreja existe para proclamar o Evangelho e o reino de Deus, não há divisão entre o secular e o sagrado, diz Dark, inclusive na música.
“Não existe molécula ‘secular’ no universo. Não existe um dente-de-leão que pertença ao diabo”, disse Dark, autor de “Everyday Apocalypse: Art, Empire, and the End of the World” (apocalipse cotidiano: arte, império e o fim do mundo). Ele acrescentou que a ideia de que Peixoto estaria levando religião a um espaço não religioso não faz sentido se você acredita —como o poeta Gerard Manley Hopkins— “que ‘o mundo está carregado da grandeza de Deus’”.
Confiança, fé e bênçãos de fones de ouvido
Peixoto, que geralmente toca usando colarinho clerical, diz que encontrou poucos conflitos entre seu ministério e seu trabalho como “padre DJ”. Ele afirma que avalia com cuidado como seus papéis se sobrepõem, verificando se as regras de um clube ou o tema de uma festa representariam algum conflito com sua condição de clérigo. Se um festival, por exemplo, planejasse usar imagens demoníacas na decoração, ele diz que não participaria.
“Acho que devemos estar no mundo sem perder nossa identidade”, disse Peixoto. “A maioria das pessoas que fala sobre música eletrônica não sabe o que é música eletrônica.”
Ele afirma que pessoas que criticam sua associação com a cultura de música eletrônica —talvez ligando-a a drogas ou hedonismo— provavelmente nunca estiveram em um festival ou discoteca: “Estão criticando o que não conhecem.”
Como Jesus e os apóstolos, Peixoto tem uma equipe de 12 pessoas que apoia seu ministério musical. O dinheiro recebido pelos shows é reinvestido na equipe, com a bênção do arcebispo de Braga, afirma Peixoto.
Ocasionalmente, seus superiores levantam dúvidas que escutam de outras pessoas sobre a natureza de seu trabalho como DJ ou os locais onde ele se apresenta. Peixoto diz que busca conselhos deles e é sempre apoiado e incentivado a continuar.
“Mesmo que meu bispo não entenda tudo, ele confia no que eu faço”, disse Peixoto.
Embora Peixoto não tenha conhecido pessoalmente Leão 14, o Vaticano reconheceu seu trabalho evangelizador nas pistas de dança no mês passado, em um comunicado sobre o evento na Catedral de Kosice. Peixoto encontrou o papa Francisco em três ocasiões. Na segunda delas, pediu ao papa que abençoasse seus fones de ouvido Sennheiser.
“Não sei se ele sabe o que é um DJ ou não, mas eu disse que era DJ e pedi a bênção dos fones”, contou Peixoto. “Os bispos, os cardeais, todos riam da situação.”
No fim das contas, Peixoto diz que espera ajudar os jovens a experimentar o amor de Deus por meio da alegria, da amizade e da comunhão encontradas na música. Ele quer que eles entendam, enquanto lutam por identidade e pertencimento, que —parafraseando Carlo Acutis, o primeiro santo millennial— devem viver não como cópias, mas como os originais únicos que Deus criou.
“Não precisamos tocar todos a mesma música, não precisamos todos pensar da mesma forma, ter a mesma visão”, disse Peixoto. Na pista de dança, as pessoas podem estar juntas como um só corpo, unidas apesar das diferenças.
Hoje em dia, Peixoto toca com equipamentos profissionais. Ele vasculha hinos católicos de 200 anos e discursos de papas anteriores e de figuras pacifistas, como Martin Luther King Jr., para encontrar trechos relevantes ao público para o qual irá tocar —Fátima em Portugal, Virgem de Guadalupe no México ou Virgem Maria na Itália.
Essa preparação significa que, quando ele sobe ao palco, seu “trabalho” já está concluído.
“Estou simplesmente apreciando e sentindo que Deus está presente, que Deus está na pista de dança conosco”, disse Peixoto. “Quando olho para a multidão, tenho a sensação de que eles também estão sentindo Deus.”




